A pediatra

*Resenha Crítica | A Pediatra – Andréa del Fuego*

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### *Introdução*

Andréa del Fuego, escritora e mestra em filosofia pela USP, construiu ao longo de sua carreira uma obra marcada pela intensidade emocional, pela prosa densa e pelo olhar afiado sobre os abismos da existência humana. Em A Pediatra, romance publicado originalmente em 2021, a autora mergulha no universo de Cecília, uma médica pediatra que, em meio à frieza cotidiana de um consultório e à desumanização dos hospitais, descobre — ou redescobre — seu corpo, seus desejos e os limites de sua capacidade de amar. A obra se insere no gênero do *romance psicológico contemporâneo, com fortes traços de drama existencial* e *crítica social, além de uma narrativa que flerta com o realismo cru* e o *lyrismo introspectivo*.

Ambientado em São Paulo, o livro não se prende a uma trama linear tradicional. Através de uma montagem fragmentada de cenas, memórias, diálogos e reflexões interiores, a autora constrói um retrato íntimo e brutal de uma mulher que, ao mesmo tempo em que salva vidas, parece perder a própria. A narrativa é uma espécie de *ensaio ficcional sobre a maternidade não vivida*, o desejo sem objeto e a solidão dentro do aglomerado urbano.

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### *Desenvolvimento analítico*

*1. Temas centrais: corpo, desejo e ausência*

Um dos eixos mais potentes de A Pediatra é a tensão entre o corpo como instrumento de cura e o corpo como fonte de desejo. Cecília é uma mulher que toca, examina, ausculta crianças o dia inteiro, mas parece ter perdido o contato com sua própria sensualidade. A medicina, nesse sentido, funciona como uma metáfora da dissociação: ela sabe tudo sobre os outros, mas quase nada sobre si mesma.

O desejo surge como uma força quase animal, irracional, que a arrasta para fora de si. A relação com Celso, executivo casado e pai de uma das crianças que ela atende, é construída com uma intensidade que beira o obsessivo. Não há romance no sentido convencional: há sexo, há dependência, há uma espécie de vício mútuo. O amor, se existe, é deslocado: Cecília não ama Celso, ama a ideia de ser desejada por ele. E, talvez, ama o filho dele — Bruninho — como uma extensão disso.

A *maternidade não vivida* é outro tema recorrente. Cecília não tem filhos, mas ao longo da narrativa vai se aproximando de Bruninho de forma cada vez mais próxima, quase simbiótica. A criança passa a ser o objeto de uma devoração afetiva: ela o quer, o toca, o cheira, o imagina como seu. Não há aqui uma idealização maternal, mas uma *maternidade sombria*, possessiva, quase doentia. A cena em que ela se reconhece como “mãe-pâncreas” é de uma crueldade e uma lucidez extraordinárias: ela não quer cuidar, quer controlar. E, no entanto, é justamente esse controle que a aproxima da humanidade que tanto parece rejeitar.

*2. Personagens: figuras sem solução*

Cecília é uma protagonista antipática por excelência — e isso é um mérito. Ela é fria, arrogante, cínica, mas também vulnerável, perdida, dilacerada. A autora não busca a redenção fácil. Ao contrário: ela constrói uma personagem que *não quer ser compreendida, que não quer ser salva*. E é justamente isso que a torna tão humana.

Celso, por sua vez, é um homem sem grandeza. Ele é fraco, contraditório, incapaz de assumir qualquer decisão com clareza. Mas também é verdadeiro. Não é um vilão, nem um herói. É um homem comum, preso em uma vida que não sabe como mudar. A relação entre os dois é uma espécie de espelho embaçado: eles se veem, mas não se reconhecem.

Bruninho, a criança, é o único ser puro da história — e, por isso mesmo, o mais vulnerável. A forma como a narrativa vai construindo sua presença quase fantasmática, como um objeto de desejo e medo ao mesmo tempo, é um dos grandes acertos da obra. Ele não fala quase nada, mas *ocupa o centro emocional do livro. É por ele que Cecília chora, é por ele que ela, talvez, sentiria* — se ainda fosse capaz.

*3. Estilo narrativo: prosa densa, voz própria*

Andréa del Fuego tem uma prosa que *não flui, que arrasta. Suas frases são longas, carregadas de adjetivos, de subordinadas, de imagens que se acumulam como camadas de pele morta. É uma escrita que não quer ser bonita, mas quer ser verdadeira*. E, muitas vezes, consegue.

O ritmo é lento, introspectivo, quase claustrofóbico. A narrativa oscila entre o fluxo de consciência e o relato objetivo, entre o delírio e a frieza clínica. Há momentos em que a linguagem se torna tão densa que o leitor precisa parar, respirar, voltar. Mas isso não é um defeito — é uma *escolha estética coerente com o universo da personagem*. Cecília é uma mulher sufocada por suas próprias palavras, e a prosa reflete isso com fidelidade.

A estrutura em fragmentos, sem capítulos tradicionais, reforça a sensação de *desmontagem progressiva*. A narrativa não segue uma lógica causal, mas afetiva. Vai se construindo por aproximação, por contaminação, como uma doença — ou como uma cura que nunca chega.

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### *Apreciação crítica*

A Pediatra é uma obra *desconfortável, e é exatamente aí que reside seu maior mérito. Não há consolo, não há lição moral, não há redenção. Há, sim, uma exploração brutal da ambiguidade humana*, da dor de não saber o que se quer, da impossibilidade de amar sem possuir.

A linguagem, embora por vezes excessiva, é *coerente com o universo afetivo da obra*. A autora não tem medo de ser feia, de ser pesada, de ser exagerada — e isso é raro na literatura brasileira contemporânea, tão acostumada ao minimalismo e à elegância contida.

O maior risco da obra é seu *equilíbrio na beira do abismo. Há momentos em que a narrativa quase desaba sob o peso de si mesma, em que a personagem parece se repetir em ciclos sem saída. Mas, curiosamente, é justamente nesse excesso* que o livro encontra sua força. Como Cecília, A Pediatra *não quer ser amada* — quer ser *sentida*.

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### *Conclusão*

A Pediatra não é um livro fácil. Não é um livro que se “gosta” no sentido tradicional. Mas é um livro *necessário. Necessário porque dá voz a uma mulher que não quer ser mãe, mas que quer possuir. Necessário porque mostra o desejo como uma doença incurável. Necessário porque não resolve nada* — e, ainda assim, *tudo muda*.

Para o leitor contemporâneo, acostumado a histórias que precisam fazer sentido, que precisam ter começo, meio e fim, A Pediatra é um desafio. Mas também é uma *oportunidade de confronto*. Com a personagem. Com a narrativa. Consigo mesmo.

Andréa del Fuego escreveu um romance *sem solução, mas com alma. E, no fim das contas, é isso que a literatura deve fazer: não curar, mas ferir. E essa ferida, uma vez aberta, não cicatriza*.

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*Gênero literário:* Romance psicológico contemporâneo / Drama existencial / Realismo lírico

Autor: Fuego, Andréa del

Preço: 34.90 BRL

Editora: Companhia das Letras

ASIN: B09CHH1BMX

Data de Cadastro: 2025-11-15 18:38:20

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