*Resenha Crítica Analítica – Boneshaker, de Cherie Priest*
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*Introdução*
Publicado em 2009, Boneshaker é o primeiro romance da série The Clockwork Century, da norte-americana Cherie Priest. A obra consolidou sua autora como uma das vozes mais originais do steampunk contemporâneo, ao misturar ficção científica, horror, aventura e western com uma sensibilidade profundamente humana. Ambientado em uma Seattle alternativa do século XIX, o livro reimagina a corrida do ouro, a Guerra Civil Americana e o surgimento de tecnologias anacrônicas, tudo sob o manto de uma névoa tóxica que transforma a cidade em um cenário pós-apocalíptico selado por muros de pedra e medo. A narrativa segue Briar Wilkes, uma mulher marcada pelo passado, em sua jornada para resgatar o filho Ezekiel, que ousou cruzar a muralha que separa os vivos dos “podres” – os mortos-vivos criados pelo gás conhecido como Praga.
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*Desenvolvimento analítico*
Boneshaker é, antes de tudo, uma história sobre herança. Não apenas a herança genética, mas a herança de culpa, de nome, de escolhas que não nos pertencem, mas que carregamos como tatuagens invisíveis. Briar Wilkes é filha de um herói e viúva de um vilão – ou é o contrário? A narrativa se recusa a entregar respostas fáceis. Maynard Wilkes, pai de Briar, é lembrado como um homem de integridade, mas também como um símbolo de uma ordem que falhou. Já Leviticus Blue, seu marido, é o cientista que criou a Boneshaker, a máquina perfuratriz que desencadeou a catástrofe. Entre esses dois polos, Briar vive como uma mulher apátrida, rejeitada tanto pela cidade que protege quanto pela história que carrega.
O conflito central – a busca de Ezekiel por respostas sobre o pai – é, na verdade, um espelhamento do conflito de Briar consigo mesma. O filho quer desenterrar a verdade; a mãe quer enterrá-la mais fundo. Essa tensão emocional é o motor mais poderoso da obra. Priest não constrói personagens heróicas; ela constrói pessoas que erram, que mentem, que fogem – e que, mesmo assim, continuam. Ezekiel, com sua idealização juvenil do pai, é tão vulnerável quanto perigoso. Sua jornada é uma iniciação ao desencanto, mas também à responsabilidade. Já Briar é uma figura maternal que não se resume ao sacrifício: ela é fúria, medo, cansaço e, acima de tudo, determinação. A relação entre mãe e filho é tratada com rara honestidade, sem sentimentalismos, mas com uma ternura que escorrega silenciosamente entre as páginas.
A ambientação é um personagem à parte. A Seattle murada é um organismo vivo, respirando pela bomba dos chineses que mantêm o ar “limpo” nos túneis, exalando vapores tóxicos, rangendo sob o peso de máquinas obsoletas e ossos não enterrados. A cidade é um palimpsesto de tempos e tecnologias: há dirigíveis, máscaras de gás, revólveres antigos, mas também engrenagens que parecem ter sido arrancadas de um sonho febril. O steampunk aqui não é decoração – é sobrevivência. A Praga, o gás que transforma os vivos em “podres”, é ao mesmo tempo uma metáfora para a guerra, para a ganância, para o progresso descontrolado. A cidade é um corpo doente, e seus habitantes são cicatrizes.
O ritmo narrativo é de respiração curta. A obra alterna entre momentos de tensão sufocante – como a perseguição dos podres ou a escalada de Briar pela escada de incêndio – e pausas claustrofóbicas nos túneis subterrâneos. A linguagem é direta, sem floreios, mas com uma musicalidade soturna. Priest evita o exibido tecnológico comum no gênero; suas invenções são sujas, rachadas, improvisadas – como a vida real. A violência é rápida, sem glamour. A morte é banal, mas nunca sem peso. E o medo – o medo é sempre real, porque nunca sabemos se o próximo capítulo trará um terremoto, um podre ou a própria máscara falhando.
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*Apreciação crítica*
O maior mérito de Boneshaker está em sua capacidade de humanizar um gênero que, muitas vezes, se perde em engranagens estéticas. Ao colocar uma mulher de meia-idade, cansada e sem ilusões como protagonista, Priest subverte o padrão do herói jovem e destemido. Briar Wilkes não é uma mulher que quer salvar o mundo – ela só quer salvar seu filho. E, no entanto, sua jornada ecoa como um ato de resistência contra a apatia, contra a história que nos é imposta.
A construção do mundo é magistral. A autora não explica tudo; ela insinua, deixa rastros, permite que o leitor colecione pedaços de um quebra-cabeça que nunca será completo. Isso pode frustrar quem busca respostas fechadas, mas é uma escolha corajosa – e eficaz. A Seattle murada não é um cenário, é uma condição. E a Praga não é um vilão, é um legado.
Se há uma limitação, ela reside no desfecho, que – sem entrar em spoilers – opta por uma resolução mais convencional do que o prometido pelo tom sombrio da narrativa. Alguns personagens secundários, como o capitão Cly ou a misteriosa Angeline, parecem prontos para histórias próprias, mas aqui funcionam mais como arquétipos do que como figuras plenamente desenvolvidas. Ainda assim, isso não compromete a força emocional da trama central.
A tradução – no caso da versão brasileira – merece elogios por manter o sabor rústico do original, com seus diálogos secos e seus neologismos tecnológicos. A edição em PDF, no entanto, carece de cuidado gráfico: a ausência de quebras de capítulo ou espaçamento adequado prejudica a fluidez, especialmente em momentos de alta tensão. Mas isso é um problema do formato, não da obra.
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*Conclusão*
Boneshaker não é apenas uma aventura steampunk com zumbis e dirigíveis. É uma meditação sobre o que carregamos – de nossos pais, de nossas cidades, de nossos erros. É uma história sobre o direito de reescrever o próprio nome, mesmo que o mundo tenha decidido quem você é antes que você pudesse protestar. Cherie Priest constrói não apenas uma Seattle alternativa, mas uma ética alternativa: aqui, o heroísmo é silencioso, feminino, cansado – e, por isso mesmo, verdadeiro.
Para o leitor contemporâneo, Boneshaker oferece duas lições urgentes: que o futuro pode ser feito de restos, e que, mesmo assim, ainda é possível – necessário – habitar os escombros com dignidade. Não é uma leitura fácil, mas é uma leitura que fica. Como a Praga, entra pelos poros. E, como Briar, não nos deixa ir embora.
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*Gênero literário:* Steampunk / Ficção Especulativa / Horror de Sobrevivência
*Classificação indicativa:* Recomendado para leitores a partir de 16 anos. Contém cenas de violência, tensão psicológica e temas como abandono parental, guerra e doença. Ideal para fãs de The Last of Us, Westworld ou Perdido em Marte – com menos tecnologia, mais alma.