Como ser uma parisiense em qualquer lugar do mundo

*Resenha Crítica | Como ser uma parisiense em qualquer lugar do mundo***
De Anne Berest, Audrey Diwan, Caroline de Maigret e Sophie Mas

Se Paris é uma ideia antes de ser um lugar, Como ser uma parisiense em qualquer lugar do mundo é um manual que desmonta essa ideia com humor, autoparódia e uma boa dose de cinismo. Publicado em 2014 pela Objetiva, o livro é coescrito por quatro amigas francesas — escritora, roteirista, produtora e ex-modelo — que decidiram traduzir em página impressa o mito da “parisiense”: aquela figura feminina que, segundo o imaginário global, nasce sabendo usar lenço de seda, fumar sem vício e transar sem se apaixonar.

A proposta é ambiciosa: ensinar ao leitor como adotar, em qualquer latitude, o “je ne sais quoi” que transforma mulheres comuns em símbolos de elegância, mistério e desapego. Mas, ao invés de um guia de etiqueta tradicional, o livro opta pelo tom de conversa de bar entre amigas que já fizeram de tudo — e se arrependam de quase nada.

### *A parisiense que ninguém pediu (mas todo mundo quer copiar)*

O livro nasce da constatação de que a parisiense mais famosa é sempre uma estrangeira. Maria Antonieta, Josephine Baker, Jane Birkin: todas adoptaram Paris como quem adota um novo sobrenome. A própria Caroline de Maigret — uma das autoras e musa da Chanel — é descendente de aristocratas russos. O que se vende como “autenticidade francesa” é, na verdade, uma construção cultural reciclável.

A estratégura das autoras é abraçar essa contradição. Elas sabem que a parisiense é um estereótipo, mas decidem brincar com ele — e lucrar. O resultado é um livro que funciona como espelho convexo: distorce, exagera e, ao mesmo tempo, revela. A parisiense das páginas é egoísta, desorganizada, infiel e vaidosa. Também é culta, irônica, trabalhadora e mãe — mas nunca perfeita.

### *Manual de instruções para uma vida imperfeita (e chic)*

A obra divide-se em cinco capítulos — “Grandes princípios”, “Reconheça seus maus hábitos”, “Cuide da aparência”, “Ouse amar” e “Conselhos parisienses” —, intercalados por “Cenas da vida parisiense” em formato de quadrinhos. A estrutura é fragmentária, como se cada seção fosse um post de blog que se perdeu e caiu entre as páginas.

Nas entrelinhas, o leitor encontra listas práticas (o que não vai para o armário de uma parisiense), receitas culinárias (frango com limão, pot-au-feu, chocolate fondant) e tutoriais de beleza (cabelo nunca seco com secador, pele sem base, joias com história). Há também lições de sedução — como fazer o namorado achar que você tem um amante — e de autoproteção — como usar o chorômetro para controlar as lágrimas em público.

O tom é de deboche refinado. As autoras não querem ser levadas a sério — ou querem, mas só até certo ponto. A graça está no excesso: a parisiense usa lingerie preta sob blusa branca, fuma no escuro, guarda pó de café na pia para limpar o encanamento e nunca perde o controle (exceto quando perde, mas aí chama de “estratégia”).

### *O fio condutor do paradoxo*

O que sustenta o livro é a coerência das contradições. A parisiense é feminista, mas adora ser cortejada; é ecologicamente correta, mas vai de scooter comprar pão; odeia o “mau gosto”, mas combina preto com azul-marinho — pecado capital na alfaiataria tradicional.

Esse jogo de paradoxos funciona porque é honesto. As autoras não prometem felicidade, apenas estilo. E, mesmo assim, um estilo que se constrói com trabalho — muito trabalho. A “naturalidade” é fruto de horas de autocuidado, a “desordem” calculada dentro de uma estética que se repete há séculos.

A crítica mais óbvia — a de que o livro reforça um padrão eurocêntrico de beleza e comportamento — é neutralizada pela autoparódia. A parisiense das autoras é tão absurda que quase vira caricatura. Quase.

### *Limites de um mito exportável*

O grande limite da obra é o público-alvo: mulheres de classe média alta, urbanas, com acesso a bons vinhos e terapias. A parisiense não existe sem Paris — e Paris não existe sem um certo nível de renda.

Além disso, o livro evita o tema racial. A “diversidade” aparece em fotos de amigas negras ou árabes, mas o texto nunca discute como a parisiense branca ocupa espaços que excluem outras versões de feminilidade francesa.

A abordagem do corpo também é ambígua. Ao mesmo tempo em que pregam aceitação, as autoras celebram a magreza como destino. A dica para emagrecer? “Levar um pé na bunda” — ou seja, sofrer amoroso. A frase é engraçada, mas não deixa de reproduzir o culto à dor como forma de controle corporal.

### *Estilo como performance da liberdade*

O grande acerto do livro é transformar estilo em narrativa. A parisiense não é o que veste, mas como justifica o que veste. O segredo, portanto, não está na peça — seja ela um trench coat ou um vestido vintage —, mas na atitude com que a peça é usada.

Esse gesto de apropriação é politicamente incorreto, mas culturalmente eficaz. Ele permite que qualquer mulher — até a que nunca pisou em Paris — possa “performar” a parisiense, como quem entra numa peça de teatro onde o roteiro já está escrito, mas a interpretação ainda é livre.

### *Conclusão: um guia de autoajuda para quem detesta autoajuda*

Como ser uma parisiense em qualquer lugar do mundo não é um livro para ser seguido à risca. É um livro para ser devorado, sublinhado, ridicularizado — e, no fim, revisitado.

Ele funciona como um espelho móvel: reflete o desejo de ser vista como única, mesmo sabendo que é clichê. E, nesse movimento, acaba por desmontar o próprio clichê.

Para o leitor brasileiro, habituado a uma estética mais colorida e corporal, a obra oferece uma contraponto seco e irônico — um convite a experimentar a vida como quem experimenta um perfume: sem compromisso, mas com consequência.

No fim das contas, a parisiense das autoras não existe — e é exatamente por isso que qualquer uma pode ser ela. Basta aceitar a contradição como forma de liberdade. E, claro, nunca usar Ugg boots.

Autor: Berest, Anne

Preço: 25.93 BRL

Editora: Fontanar

ASIN: B00P1Y7A3U

Data de Cadastro: 2025-06-06 07:18:17

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