Deixe-me ir

*Resenha Crítica – Deixe-me ir, de Daniela Sacerdoti*
Gênero: Romance contemporâneo com toques de fantasia e espiritualidade
Classificação indicativa: Leitores a partir de 16 anos, especialmente apreciadores de narrativas emocionais, ambientadas em cenários escoceses e com elementos de luto, amor e autodescoberta.

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*Introdução*
Publicado originalmente em 2014 sob o título Take Me Home, Deixe-me ir é o segundo romance de Daniela Sacerdoti a ambientar-se na fictícia vila escocesa de Glen Avich, mas funciona perfeitamente como obra independente. A autora, nascida na Itália e radicada na Escócia, constrói uma narrativa que combina sensibilidade mediterrânea com a atmosfera úmida e mística das Highlands. O resultado é um romance que fala de perda, amor e reencontro, mas sobretudo de aceitação – da dor, do passado e das escolhas que não se repetem.

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*Desenvolvimento analítico*
A história começa com Inary Monteith, uma jovem editora londrina que, após a morte da irmã Emily, regressa à sua terra natal em Glen Avich. A narrativa é dividida em capítulos que alternam a voz de Inary com a de Alex, seu amigo de infância e amor não correspondido, e ainda com a de Logan, o irmão mais velho de Inary, criando um triângulo de perspectivas que revela, aos poucos, o peso do luto e as fraturas invisíveis de uma família marcada pela morte prematura dos pais e pela doença de Emily.

O tema central é o luto, mas não o luto como clichê literário. Sacerdoti constrói uma geografia emocional da dor: a casa que parece menor, o silêncio que ocupa espaço, a fala que se perde – literalmente, no caso de Inary, que desenvolve disfonia psicogênica após a morte da irmã. A perda de voz torna-se metáfora poderosa para a impossibilidade de nomear o inominável. A autora não se apressa em “curar” sua protagonista; antes, permite que ela navegue pela ausência, encontrando nas aparições de espíritos – especialmente o de uma jovem do século XIX chamada Mary – uma ponte entre o mundo dos vivos e o dos mortos.

Mary é, talvez, a personagem mais bem construída da obra. Ela não é apenas um fantasma conveniente; sua história de amor frustrado com Robert ecoa a trajetória de Inary com Alex, criando uma estrutura de paralelismo temporal que funciona como espelho emocional. A descoberta gradual da identidade de Mary – por meio de registros paroquiais, cartas e visões – transforma a narrativa em um pequeno thriller doméstico, onde o passado não está morto, apenas adormecido.

O estilo de Sacerdoti é lírico sem ser exagerado. A prosa flui com cadência pausada, quase como um cântico, e a autora tem o dom de captar o tempo escocês – não apenas o clima, mas o ritmo das estações, o ciclo da terra, a lentidão dos dias após o inverno. A ambientação é um personagem à parte: o lago Avich, o poco de St. Coleman, o bosque onde Inary e Logan caminham – tudo funciona como extensão emocional dos personagens. Há, sim, um certo risco de regionalismo exótico, mas a autora evita o pior ao não idealizar a vila; Glen Avich é bela, mas também é pequena,fofocenta e, às vezes, sufocante.

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*Apreciação crítica*
O maior mérito de Deixe-me ir é sua honestidade emocional. A dor não é estética; ela é feia, cotidiana, entediante – e ainda assim é digna de literatura. A escolha de tornar Inary muda por boa parte do livro é ousada: priva a narrativa da verbalização fácil e obriga o leitor a habitar o silêncio com ela. Funciona. A tensão emocional cresce não pelo que é dito, mas pelo que é omitido.

Outro acerto é a construção masculina. Alex não é o herói salvador; ele é, antes, um homem que também perdeu o chão. Seu relacionamento com Sharon, uma colega de trabalho, é tratado com maturidade: não é vilanizada, nem descartada como erro. Já Logan, o irmão protetor, é o típico homem escocês que fala pouco e bebe demais – mas Sacerdoti evita estereotipá-lo, mostrando que sua rigidez é também uma forma de cuidado.

Entre as limitações, destaca-se o ritmo. A narrativa é deliberadamente lenta, o que pode cansar leitores acostumados a tramas mais dinâmicas. Além disso, o elemento fantástico – as aparições de Mary – é introduzido de forma tão sutil que, em alguns momentos, parece mais um delírio de Inary do que uma presença real. Isso não chega a comprometer a trama, mas gera uma certa ambiguidade que nem todos apreciarão.

A linguagem, por vezes, cai em lugares-comuns (“meu coração se partiu em mil pedaços”), mas é compensada por imagens precisas e sensoriais: o cheiro de turfa nas roupas, o som das gaivotas sobre o lago, o gosto de uisque queimando a garganta. Sacerdoti sabe que a memória é corporal – e escreve a partir disso.

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*Conclusão*
Deixe-me ir não é um livro sobre morte. É um livro sobre o que sobrevive à morte: o amor que não se extingue, mas se transforma; a memória que não consola, mas acompanha; a vida que, contra toda lógica, continua. Daniela Sacerdoti não oferece respostas fáceis – e é exatamente isso que torna a obra relevante para o leitor contemporâneo, habituado a soluções rápidas até para o luto.

Em tempos em que a dor é rotulada e resolvida em 280 caracteres, Deixe-me ir ousa dizer: algumas feridas não fecham. Algumas vozes não voltam. E ainda assim, vale a pena viver. Não por um final feliz, mas por cada pequeno milagroso instante em que o coração, mesmo partido, bate mais uma vez.

Autor: Sacerdoti, Daniela

Preço: 22.90 BRL

Editora: Universo dos Livros Editora Ltda.

ASIN: B00P6HYL70

Data de Cadastro: 2026-01-11 17:42:54

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