Harmada

*Resenha Crítica de Harmada, de João Gilberto Noll*
Gênero: romance literário, ficcional, com traços de autoficção e narrativa fragmentada

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*Introdução*

João Gilberto Noll (1946–2017) foi um dos escritores mais singulares da literatura brasileira contemporânea. Sua obra, marcada por uma prosa lírica, descontinua e permeada de tensões existenciais, construiu ao longo de décadas uma poética da desorientação. Em Harmada, publicado originalmente em 2013, Noll retorna a territórios familiares: a deriva, a solidão, a sexualidade como forma de contato e desgaste, e a busca por uma identidade que parece sempre escorregar entre os dedos. O romance é, ao mesmo tempo, uma narrativa de formação (ou deformação) e um registro de desmoronamento — não necessariamente nessa ordem.

Ambientado em uma cidade fictícia que dá título ao livro, Harmada segue um narrador-anônimo que, como em outros textos de Noll, parece flutuar entre ação e passividade, entre o desejo e o vazio. A cidade, com seu clima abafado, sua geografia úmida e seus personagens marginais, funciona como extensão do corpo do protagonista: saturada, empobrecida, mas ainda pulsante. A obra dialoga com o tempo da narrativa nolliana — lento, sensual, desprovido de grandes revelações — e com o tempo da vida — acelerado, brutal, efêmero.

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*Desenvolvimento analítico*

O tema central de Harmada é a desagregação do sujeito em meio a uma realidade que não lhe oferece apoio. O narrador, ex-ator, ex-marido, ex-habitante de si mesmo, move-se por espaços degradados — asilos, bares, quartos de hotel, praias sujas — como quem já não espera mais sentido, mas ainda busca intensidade. A narrativa é feita de lembranças truncadas, encontros sexuais, confissões ao léu e momentos de estranhamento absoluto. Não há um arco tradicional, mas sim uma série de cenas que se acumulam como camadas de um corpo que já não se reconhece.

A construção das personagens é fluida, quase espectral. O narrador encontra figuras como Amanda, uma atriz com quem mantém um relacionamento tortuoso e erótico; Cris, uma adolescente que pode ou não ser sua filha; Bruce, um amigo de infância que retorna como espelho deformado do próprio narrador. Essas personagens não são desenvolvidas em profundidade psicológica, mas funcionam como projeções do desejo, da culpa, da perda. A própria cidade de Harmada é uma personagem: úmida, sensual, decadente, ela parece sugar os personagens para dentro de si, como se fosse um organismo vivo e doente.

O estilo narrativo é, como de costume em Noll, uma mistura de sensualidade e desolação. A prosa é densa, com frases longas, parágrafos que se estendem como ondas de calor, e uma sintaxe que muitas vezes se desvia da norma para criar efeitos de sonho ou delírio. Há uma oralidade marcada, mas não coloquial — é como se o narrador estivesse falando sozinho, em voz baixa, tentando entender o que lhe aconteceu. A linguagem é carregada de imagens corporais, fluidos, cheiros, texturas — uma estética do corpo como lugar de memória e destruição.

Simbolismos estão presentes, mas nunca fixos. A água, por exemplo, aparece como elemento de purificação e afogamento. O teatro é ao mesmo tempo lugar de fuga e de exposição. A comida — frequentemente enlatada, industrializada — é símbolo de uma vida que se sustenta com restos. Há uma crítica sutil à modernidade, ao consumo, à falta de raízes, mas ela está embutida na própria forma da narrativa, que rejeita linearidade e clareza como formas de resistência ao mundo racionalizado.

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*Apreciação crítica*

Um dos maiores méritos de Harmada é sua capacidade de manter o leitor em estado de tensão estética. Noll não oferece conforto narrativo: não há redenção, não há epifania, não há catarse. Mas há uma beleza brutal na forma como ele constrói a deriva. A linguagem, ainda que exigente, é hipnótica. O leitor é arrastado por uma corrente de imagens que, mesmo quando desagradáveis, são irresistivelmente vívidas. A sensação é a de estar dentro de um corpo que pensa, sente e se desfaz ao mesmo tempo.

A estrutura fragmentada pode ser, para alguns, um obstáculo. A ausência de um enredo claro, a repetição de temas, a circularidade das cenas — tudo isso pode gerar impaciência em leitores acostumados com narrativas mais diretas. Mas essa é justamente a proposta de Noll: uma literatura que não entrega sentido pronto, que exige do leitor um esforço de montagem, de interpretação, de aceitação do vazio. Não é uma obra “difícil” no sentido erudito, mas sim no sentido existencial: ela confronta o leitor com a própria falta de estabilidade.

Outro ponto forte é a forma como o livro lida com o tempo. Harmada não se passa em uma época definida — poderia ser os anos 1980, poderia ser ontem. A cidade é uma espécie de limbo, e isso reforça a sensação de que o narrador está fora do tempo histórico, vivendo uma espécie de pós-vida. A morte está presente em cada página, mas não como acontecimento, e sim como atmosfera. E, mesmo assim, o livro não é deprimente — é melancólico, sim, mas também sensual, curioso, vivo.

A questão da representação da sexualidade merece destaque. Noll é um dos poucos escritores brasileiros que consegue escrever sobre sexo sem cair nem no pornográfico nem no moralista. A sexualidade em Harmada é uma forma de linguagem, de contato, de afirmação do corpo — mas também de desgaste, de violência, de confusão. Há cenas fortes, mas nunca gratuitas. O sexo é, como tudo no livro, uma forma de estar no mundo — e de se perder nele.

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*Conclusão*

Harmada não é um livro para todos — e não precisa ser. É uma obra que exige paciência, disposição para o desconforto e abertura para a ambiguidade. Mas, para quem se permite entrar em seu ritmo, ele oferece uma experiência literária rara: a de estar diante de uma voz que não quer explicar o mundo, mas que o habita com intensidade, com dor e com prazer. João Gilberto Noll, com sua prosa única, constrói uma narrativa que não é sobre a vida, mas é da vida — com toda sua sujeira, sua beleza e sua falta de sentido.

Em tempos de literatura cada vez mais adaptada ao consumo rápido, Harmada resiste. Ele não quer ser compreendido de imediato — ele quer ser vivido, devorado, sonhado. E, no fim, talvez seja isso que a literatura deva fazer: não explicar, mas habitar. Noll, com sua poesia suja e sua prosa febril, continua a ser um dos mestres dessa habitação. Harmada é mais uma prova de que, mesmo sem roteiro, sem plano, sem redenção, ainda é possível escrever um livro que late dentro da gente por muito tempo depois da última página.

Autor: Noll, João Gilberto

Preço: 35.40 BRL

Editora: Record

ASIN: B00EZ4AIGI

Data de Cadastro: 2025-11-19 18:44:02

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