História breve da literatura portuguesa: questão social e subjectividade - Contacto (LU)

História breve da literatura portuguesa: questão social e subjectividade  Contacto (LU)

História breve da literatura portuguesa: questão social e subjectividade - Contacto (LU)
Organizações e instituições, pouco reguladas e fora do alcance de qualquer tipo de escrutínio, constituem o território onde ganham raízes os modos mais autoritários de perseguição aos elos mais fracos das cadeias hierárquicas. É nelas que se encontram os modos mais prementes de retorno à disciplina e aos mecanismos da autocensura. E o que tem a literatura a ver com isso? Como pode a mesma ser mobilizada para impedir que o autoritarismo e o despotismo criem raízes?

Antes de mais, será possível encontrar na literatura uma outra forma de conhecimento, porventura mais real e mais pertinente, do que aquele que aceitamos como sendo da ordem política. A prova está no facto de conseguimos identificar mais facilmente o nome de Eça, de Pessoa e de mais alguns escritores, mas só a custo e com hesitação sabemos os nomes dos políticos seus contemporâneos. Depois, será sempre possível encontrar na literatura uma resposta para os problemas já ensaiados ou, porque não, um refúgio para nos distanciarmos do que por aí vai.  

Assim, com o estatuto assumido de uma simplificação forçada, gostaria de enunciar uma hipótese: há, na literatura portuguesa e não só, um enorme contraste entre o tratamento da questão social e o centramento na subjectividade como objecto principal de análise. Claro que qualquer um dos termos em oposição é composto por vários elementos. Os problemas sociais incluem reflexões sobre o atraso, a decadência, a denúncia da má governação ou a fixação nas situações de pobreza e miséria. Enquanto a exploração da subjectividade parte da explosão dos sentimentos, segue as projecções autobiográficas, mas pode chegar às fronteiras entre o anormal e o patológico, adoptando as figuras da loucura ou moldando-se às agendas que se inspiram em Freud.