Infância e afrodescendente: epistemologia crítica no ensino fundamental

*Resenha Crítica Analítica*
*Título:* Infância Afrodescendente: Epistemologia Crítica no Ensino Fundamental
*Autora:* Ana Katia Alves dos Santos

*Gênero:* Ensaio acadêmico-crítico / Pedagogia social / Literatura de formação docente

---

### Introdução

Ana Katia Alves dos Santos é uma educadora e pesquisadora baiana que, ao longo de mais de uma década de docência em escolas públicas de Salvador, transformou a observação cotidiana em matéria-prima de reflexão filosófica. Infância Afrodescendente: Epistemologia Crítica no Ensino Fundamental (EDUFBA, 2006) nasce desse cruzamento entre experiência de sala de aula e rigor teórico. O livro é, ao mesmo tempo, denúncia e proposta: denúncia do apagamento da cultura negra no currículo escolar e proposta de virada epistemológica que restitua à criança afrodescendente o direito de ser sujeito de seu próprio conhecimento. Publicado em um momento em que a Lei 10.639/03 (que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira) ainda engatinhava, o ensaio antecipa e alimenta os debates que hoje ocupam professores, formuladores de políticas públicas e movimentos negros.

### Desenvolvimento analítico

O fio condutor do livro é a pergunta “O que é isto – a infância afrodescendente?”. A autora não a encerra numa definição fechada; antes, desdobra-a em camadas históricas, antropológicas e pedagógicas. A primeira camada mostra como a escola brasileira, herdeira do projeto colonial-jesuíta, construiu a figura da “criança sem lugar”: o indígena que precisava ser catequizado, o negro que precisava ser “liberto” de si mesmo, o mestiço que precisava ser embranquecido. Ana Katia recupera documentos, depoimentos de alunos e pais, cenas de sala de aula em que o Candomblé é chamado de “macumba” e o contra-egum (bracelete sagrado) é banido como “objeto inadequado”. Essa etnografia sutil revela que o racismo não grita apenas na rua: ele se insinua nas pequenas rotinas – na cor do lápis de pele escolhido para desenhar um “bonequinho”, na música que não se canta, no mito que não se conta.

A segunda camada é a epistemológica. Aqui a autora confronta a tradição cartesiana – sujeito separado do objeto, mente apartada do corpo – com a cosmovisão iorubá, em ver o conhecimento é experiência de corpo inteiro, memória ancestral, dança, canto, comunhão com a natureza. O terreiro de Candomblé é apresentado como “escola que não se chama escola”: lugar onde a criança aprende a ser plural (multiplicidade de orixás), a compartilhar (Oxum), a conviver com a floresta (Ossanyin), a acolher o estranho (Ibeji). A passagem da lógica binária (certo/errado, civilizado/primitivo) para a lógica da complementaridade é o movimento que o livro propõe ao professor.

A terceira camada é a pedagógica. Ana Katia lista sete princípios que deveriam reger uma “epistemologia crítica”: reconciliação com a experiência, valorização da diversidade, co-responsabilidade, rigor com delicadeza, inteligência como capacidade de enfrentamento, integração com a natureza. Cada princípio é ilustrado por cenas reais: João, 10 anos, que entrega ao “santo” o preconceito que sofre; Josenilda, que retira o contra-egum para entrar na escola e, ao fazê-lo, sente que “tira um pedaço de si”. Esses micro-relatos são o coração pulsante do livro: evitam o tom panfletário e mostram que toda transformação começa no gesto menor – um olhar que não desvia, uma pergunta que não silencia.

### Apreciação crítica

O maior mérito da obra é o tom. Ana Katia consegue fazer filosofia sem perder o sabor da oralidade. A linguagem oscila entre a densidade conceitual (Heidegger, Bourdieu, Viveiros de Castro) e a cadência do contar baiano, com direito a “oi, boa tarde” da mãe de João, ao cheiro de acarajé que invade a entrevista, ao som do atabaque que “entra pelas janelas da escola”. Essa mistura evita dois riscos: o da acadêmica hermética e o do manual auto-ajuda. O resultado é um texto que se lhe com vontade de prosseguir, como quem ouve história de terreiro à noite.

Outro acerto é a estrutura em espiral: cada capítulo retoma a pergunta inicial, mas de um patamar mais alto. A sensação é de que o livro “dança” – avança, recua, gira – tal qual o movimento dos orixás. Essa forma rítmica subverte a linearidade da dissertação tradicional, sendo ela própria performance do argumento que defende.

Como limitação, o texto às vezes se repete: a autora insiste demais na defesa da epistemologia genética como vilã, quando poderia dedicar mais espaço ao contraditório – afinal, Piaget também foi usado por educadores progressistas. A obra poderia, ainda, trazer mais voz das próprias crianças: os depoimentos aparecem, mas filtrados pela adulta que interpreta. Um capítulo com fotos, desenhos ou até transcrições de rodas de conversa poderia reforçar o compromisso com a polyphonia.

Por fim, o livro é, deliberadamente, utópico. Ana Katia afirma que a “virada epistemológica” não depende só de mudança de currículo, mas de “conversão existencial” do professor. A proposta é bela, mas corre o risco de parecer ingênua diante da precarização do magistério, da sobrecarga de horas-aula, da censura religiosa que paira sobre escolas públicas. A autora menciona essas barreiras, mas não aprofunda estratégias de enfrentamento concreto – como formação continuada paga, articulação com conselhos de escola, ou uso de tecnologias digitais para amplificar vozes afrodescendentes.

### Conclusão

Infância Afrodescendente não é obra para ser lida apenas por educadores ou pesquisadores. É convite a qualquer leitor que queira entender como o racismo se infiltra nas fibras da escola – e como é possível tecer outro lençol. Ana Katia não oferece receita pronta; entrega algo mais precioso: uma atitude – a de escutar a criança que, ao invés de responder “qual é a cor do papel?”, pergunta “por que meu cabelo não cabe no desenho?”.

Vinte anos depois de sua publicação, o livro permanece atual porque ainda há professoras que confiscam contra-eguns, pais que retiram filhos de aula quando ouvem “axé”, crianças que aprendem a se calar antes de cantar para Oxum. Em tempos de escola sem partido, de livros didáticos que recolocam o “paciente negro” como símbolo de saúde pública, a utopia da autora soa menos ingênua e mais urgente. Ler Infância Afrodescendente é, portanto, exercício de cidadania: aprender a ver a sala de aula como terreiro de possibilidades, onde o conhecimento pode nascer não da certeza, mas do tambor que convida todo corpo a dançar.

Autor: Santos, Ana Katia Alves dos

Preço: 0.00 BRL

Editora: SciELO - EDUFBA

ASIN: B00ZPKUC7G

Data de Cadastro: 2025-11-28 13:31:07

TODOS OS LIVROS