*Resenha crítica analítica de Jeito de matar lagartas, de Antonio Carlos Viana*
Gênero literário: Contos | Classificação indicativa: Leitores a partir de 16 anos (temas sensíveis, violência simbólica e sexualidade implícita)
---
*Introdução – O fio que une as histórias*
Antonio Carlos Viana, nascido em Aracaju e formado entre o Brasil e a França, é um dos nomes mais discretos – e intrigantes – da literatura brasileira contemporânea. Em Jeito de matar lagartas (Companhia das Letras, 2015), ele reúne 21 contos que, apesar de autônomos, conversam entre si como peças de um mesmo quebra-cabeça emocional. A obra não tem um protagonista único, mas sim um corpo coletivo de personagens que carregam feridas de abandono, desejo, solidão e, sobretudo, a urgência de dizer o que não pode ser dito em voz alta. O título, provocador, já anuncia o tom: aqui, o “jeito de matar” não é apenas o das lagartas – é o de lidar com o que nos incomoda, com o que rasteja pela casa da memória e não nos deixa em paz.
---
*Desenvolvimento analítico – O cotidiano como espelho do abismo*
Viana constrói seus contos a partir de gestos mínimos: uma visita de pêsames que nunca é feita, uma escova progressiva marcada no mesmo dia da morte do marido, uma senhora que se masturba diante do mar imaginando-se amada. São micro-dramas extraídos da vida real, quase sempre em ambientes urbanos ou suburbanos, com personagens que poderiam ser nossos vizinhos – e é aí que mora o perigo. O autor desnuda essas vidas com uma linguagem que oscila entre o coloquial e o poético, entre o grotesco e o lírico, criando um efeito de realidade aumentada: tudo parece familiar, mas há sempre um detalhe que desestabiliza – um cheiro, uma sombra, uma lembrança que não quer morrer.
O tema central que perpassa a obra é a incomunicabilidade dentro das relações. Em “A Muralha da China”, duas crianças tentam montar um quebra-cabeça enquanto os pais preparam a pior das notícias para uma vizinha. A cena, aparentemente simples, é um primor de suspensão emocional: o leitor sente que algo terrível está por acontecer, mas a narrativa se recusa a apressar o desfecho. Em “Professor Locarno”, um aniversário de 89 anos se transforma num ato de humilhação silenciosa, onde a família celebra a própria impaciência pela morte do patriarca. Já em “Cara de Boneca”, a infância é mostrada como um território de sexualidade precoce e violência consentida, onde um velho recolhedor de lixo se torna objeto de desejo e degradação para um grupo de meninos. Aqui, Viana não julga – expõe. E é essa ausência de moralismo que torna os contos tão desconfortáveis e, ao mesmo tempo, tão necessários.
A construção das personagens é um dos grandes trunfos do livro. Viana não as descreve – as ouve. Dona Irene, Dona Katucha, Maria Montez, Professor Locarno, Nena: todos falam em primeira pessoa ou em terceira muito próxima, com vozes marcadas por manias, repetições, silêncios. A linguagem, nesse sentido, é o personagem. Ao ler “Dona Katucha”, por exemplo, percebemos a velhice não pela idade da protagonista, mas pela cadência de suas frases, pela obsessão com o espelho, pela forma como ela chama os homens de “meu bem” mesmo depois de rejeitada. É uma literatura de corpo, que se faz presente na garganta do leitor – como se, ao virar a página, a gente sentisse o cheiro de enxofro da lagarta ou o gosto do creolina no banheiro de Dona Deusinha.
A ambientação, por sua vez, funciona como extensão afetiva dos personagens. As casas são sempre muito cheias ou muito vazias. Os objetos – uma caixa de Sedex, uma escova de cabelo, uma garrafa de cachaça – ganham peso simbólico, como se fossem extensões do corpo que não ousam falar. Em “Enquanto espero”, a protagonista atende clientes em uma cama de hospital no meio de uma sala improvisada; o espaço é o corpo – suado, manchado, desejado. Em “Cremação”, a funerária é um útero de morte, onde Dona Deusinha não consegue mais respirar. A cidade, sem nome, é um corredor de memórias onde ninguém envelhece com dignidade.
---
*Apreciação crítica – A beleza do desconforto*
O grande mérito de Jeito de matar lagartas está em sua capacidade de desestabilizar sem apelar para o chocante. Viana não precisa de cenas explícitas – o horror está no detalhe, no que não é dito. Ao mesmo tempo, ele não romantiza a miséria: há humor, há carinho, há – por que não? – tendresse mesmo nas figuras mais abjetas. A linguagem, nítida e sem firulas, permite que o leitor entre nas histórias – e, uma vez lá dentro, não encontre saída fácil.
Entre as limitações, talvez o livro exija demais do leitor despreparado. A repetição de temas – velhice, solidão, sexualidade tardia, morte – pode gerar saturação emocional se a leitura for feita de uma só vez. Além disso, o final aberto de vários contos – típico da estética contemporânea – pode frustrar quem busca desfechos redentores. Mas, justamente aí, está o gesto ético de Viana: a vida não dá sentido, cabe a nós lidar com o vazio.
---
*Conclusão – A lagarta que nunca morre*
Jeito de matar lagartas não é um livro simpático. Ele não quer ser amado – quer ser lido. E, nesse gesto, transforma o ato de ler em ato de resistência. Ao expor as rachaduras do humano – o desejo que persiste, a vergonha que lateja, a morte que chega sem hora marcada –, Viana não oferece consolo, mas companhia. As lagartas, afinal, nunca morrem de vez: elas metamorfoseiam-se em borboletas ou retornam como lembrança – e é nisso que reside a beleza dolorida desta obra.
Para o leitor contemporâneo, acostumado a narrativas rápidas e emocões prontas, Jeito de matar lagartas é um convite ao desaceleramento. Ao fim da leitura, não saímos melhores – saímos mais íntimos de nossas próprias vergonhas. E, talvez, isso seja o mais revolucionário que a literatura pode fazer: nos olhar no espelho e não desviar o olhar.