Mascarados: A verdadeira história dos adeptos da tática Black Bloc (História Agora)

*Resenha Crítica: Mascarados – A Verdadeira História dos Adeptos da Tática Black Bloc***
Autores: Esther Solano, Bruno Paes Manso e Willian Novaes

Em meio à efervescência dos protestos de rua que tomaram conta do Brasil entre 2013 e 2014, poucos fenômenos causaram tanta perplexidade quanto a ascensão dos chamados black blocs. Vestidos de preto, com os rostos cobertos por máscaras, esses jovens passaram a protagonizar cenas de confronto com a polícia, depredação de patrimônio e, sobretudo, uma radicalização das manifestações que até então eram majoritariamente pacíficas. Mas quem são esses mascarados? O que os motiva? E por que sua presença desperta tanto medo e repulsa?

É para desvendar essas questões que os jornalistas Bruno Paes Manso e Willian Novaes, junto com a pesquisadora Esther Solano, propõem em Mascarados uma investigação plural, ambiciosa e, acima de tudo, humanizadora. A obra não apenas apresenta os bastidores da tática black bloc, mas também convida o leitor a refletir sobre a violência como linguagem política, o papel da mídia na construção de estigmas e a urgência de um diálogo real entre as partes em conflito.

### Contexto e estrutura da obra

Publicado em 2014 pela editora Geração, Mascarados é resultado de um ano de pesquisa de campo, entrevistas, convívio direto com os manifestantes e acompanhamento de protestos em São Paulo. A obra é dividida em quatro partes, cada uma sob a ótica de um dos autores: Esther Solano assume a perspectiva acadêmica, Bruno Paes Manso a do jornalista crítico, Willian Novaes a do fotógrafo e testemunha direto, e ainda há um depoimento do coronel da PM Reynaldo Simões Rossi, que foi agredido por manifestantes.

Essa estrutura multiperspectiva é uma das grandes virtudes do livro. Ela permite que o leitor entre em contato com diferentes camadas de percepção sobre o mesmo fenômeno, sem que haja uma tentativa de impor uma única “verdade”. O tom é predominantemente descritivo, com espaço generoso para os depoimentos dos próprios atores – sejam eles manifestantes, policiais ou moradores impactados pelos protestos.

### Ideias centrais: raiva, estética e política

O livro se constrói em torno de três eixos principais: a raiva como motor político, a estética da violência e a tensão entre anonimato e identidade. A tática black bloc, como defendem seus adeptos, não é um grupo organizado, mas sim uma forma de ação coletiva baseada em ações diretas, anonimato e confronto com símbolos do capitalismo e do Estado.

A raiva, frequentemente interpretada como “adolescente” ou “incompreensível”, é aqui tratada com seriedade. Os autores mostram que ela é, muitas vezes, uma resposta legítima a uma vida marcada pela violência policial cotidiana, pela exclusão social e pela sensação de impotência diante de um sistema político fechado em si mesmo. A frase “a violência é a única forma de ser ouvido” aparece como um mantra doloroso entre os entrevistados, revelando um desespero que a sociedade prefere ignorar.

A estética também tem papel central. O preto, a máscara, o “morfar” (transformação ao vestir o uniforme) não são apenas recursos de proteção, mas formas de construir uma identidade coletiva, de apagar diferenças sociais e de criar um “nós” que se opõe ao “eles” – seja o Estado, a polícia ou a classe média assustada. A performance da violência, nesse sentido, é também uma forma de teatro político, uma tentativa de roubar a cena de um sistema que os relega à invisibilidade.

### Análise crítica: entre o estereótipo e a complexidade

Um dos méritos mais contundentes de Mascarados é sua capacidade de desmontar estereótipos. O “vandalismo” é desmontado como categoria única; o “moleque perdido” ganha rosto, história e motivação; o “policial vilão” também é ouvido, e revela, muitas vezes, sua própria condição de vitima de um sistema que o coloca na linha de frente sem dar-lhe ferramentas para mediar conflitos.

Contudo, o livro não cai no erro de romanticizar os black blocs. Há espaço para a crítica interna, para os conflitos entre os próprios manifestantes, para os abusos e para os limites da tática. A morte do cinegrafista Santiago Andrade, por exemplo, é tratada com a gravidade que merece, e os autores não evitam o questionamento: até onde a violência pode ser justificada em nome de uma causa?

A abordagem é, portanto, plural e honesta. Não há uma defesa acrítica, mas tampouco uma condenação moralista. O que se propõe é um olhar mais nuançado, que reconhece a complexidade de um fenômeno que não pode ser compreendido fora do contexto de uma sociedade profundamente desigual, violenta e descrente de suas instituições.

### Estilo e estrutura: jornalismo com alma

O estilo do livro é dinâmico, com linguagem acessível e ritmo ágil. A alternância entre vozes – a da pesquisadora, a do repórter, a do fotógrafo – evita a monotonia e mantém o leitor engajado. As descrições das manifestações são vívidas, quase cinematográficas, e os diálogos com os manifestantes são marcantes por sua autenticidade.

A estrutura, por sua vez, favorece a compreensão gradual do fenômeno. Começamos com uma visão mais ampla, quase sociológica, e vamos nos aproximando do microcosmo individual, até chegarmos ao depoimento do coronel da PM, que fecha o ciclo com uma perspectiva institucional. Essa progressão é inteligente e didática, sem soar artificial.

### Contribuições e limitações

Mascarados é uma obra importante por pelo menos três razões. Primeiro, por colocar em debate uma forma de protesto que foi largamente criminalizada sem que se compreendesse seus fundamentos. Segundo, por humanizar um grupo que foi transformado em bode expiatório para os males da desordem urbana. Terceiro, por mostrar que a violência não é apenas uma questão moral, mas também política – e que, se não for compreendida, tende a se repetir.

Contudo, o livro também tem suas limitações. A profundidade da análise varia conforme o autor, e há momentos em a abordagem jornalística prevalece em detrimento de uma reflexão mais sistemática. Além disso, embora o livro se proponha a ouvir “todos os lados”, a voz dos moradores comuns, que também são afetados pelos protestos, aparece de forma mais tangencial.

Por fim, Mascarados é uma obra que envelheceu bem. Escrito no calor dos acontecimentos, ele não apenas registra um momento histórico, mas também antecipa muitas das questões que ainda hoje perpassam os protestos de rua no Brasil: a desconfiança nas instituições, a brutalidade policial, a midiatização da violência e a dificuldade de diálogo entre adversários.

### Conclusão

Mascarados não é um livro confortável. Ele incomoda, desafia certezas e exige do leitor um esforço de empatia para além das próprias convicções. Mas é justamente por isso que se torna essencial. Em tempos em que a polarização é a regra e o diálogo parece uma utopia, a obra de Solano, Paes Manso e Novaes nos lembra que, antes de julgar, é preciso entender. E que, muitas vezes, a violência que mais importa não é a que quebra vidraças, mas a que silencia vozes, apaga histórias e mantém intocados os verdadeiros alvos da revolta.

Autor: Novaes, Willian

Preço: 23.40 BRL

Editora: Geração Editorial

ASIN: B00QVCP7PO

Data de Cadastro: 2025-06-08 03:45:29

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