Mate-me quando quiser

*Resenha Crítica – Mate-me Quando Quiser (Anita Deak)*
Gênero literário: Romance psicológico, suspense existencial, tragédia urbana
Classificação indicativa: Adulto (16+), leitores interessados em literatura contemporânea com forte carga emocional, temas de identidade, morte, amor e culpa

---

### *Introdução – Quando a morte é um convite*

Publicado em 2014 pela Editora Gutenberg, Mate-me Quando Quiser é o segundo romance da escritora mineira Anita Deak. A obra mergulha no universo sombrio e contraditório de uma mulher que, cansada da própria existência, contrata um assassino para acabar com sua vida. Mas o que parece ser um enredo linear de suspense existencial revela-se, nas mãos de Deak, uma intricada teia de desejos, frustrações, traições e redenções – tudo isso sob o pano de fundo sedutor e claustrofóbico de Barcelona, uma cidade que aqui não é apenas cenário, mas também espelho emocional das personagens.

O livro dialoga com a tradição do romance psicológico – ecoando nomes como Clarice Lispector, Patricia Highsmith e até Machado de Assis –, mas o faz com uma voz contemporânea, urbana e feminina, que não teme expor a feiura das emoções com a mesma intensidade com que revela sua vulnerabilidade. É uma obra sobre o desejo de morrer, sim, mas também sobre o medo de viver. Sobre o amor como forma de posse. Sobre a culpa como motor de destruição. E, acima de tudo, sobre a impossibilidade de se ser plenamente conhecido – por si ou pelo outro.

---

### *Desenvolvimento analítico – Entre a morte e o espelho*

A trama gira em torno de uma mulher anônima – conhecida apenas como “a Mulher” – que viaja a Barcelona com o objetivo de morrer. Mas não por qualquer motivo: ela quer ser assassinada. Para isso, contrata Soares, um matador profissional, com quem estabelece um estranho contrato: ele deve matá-la em qualquer momento dentro de quatro meses, desde que seja discreto. A partir daí, o leitor é arrastado para um jogo de observação, perseguição e identificação, onde os papéis de algoz e vítima se misturam, se invertem e, por fim, se dissolvem.

A narrativa é fragmentada em pequenos capítulos que alternam pontos de vista – a Mulher, Soares, o Homem (joalheiro que mantém duas famílias), a Morena e a Loira (suas esposas), além de uma narradora metalinguística que frequentemente comenta a ação com ironia e distanciamento. Esse estilo, que poderia parecer desconexo, funciona como um espelho em cacos – cada fragmento reflete uma versão parcial da verdade, e o leitor é convidado a montar o quebra-cabeça emocional das personagens.

O tema central é o desejo de desaparecer – não apenas fisicamente, mas também da memória, do tempo, das expectativas. A Mulher não quer se matar: ela quer que alguém a mate, como se isso pudesse transferir para outro o peso da decisão. É um ato de covardia e coragem ao mesmo tempo. E, curiosamente, quanto mais ela se aproxima da morte, mais ela começa a desejar a vida – ou, pelo menos, a desejar ser vista. Já Soares, o matador, é um homem que perdeu a capacidade de sentir. Ele mata como quem entrega encomendas – com eficiência, sem emoção. Até que, ao conhecer a Mulher, algo em si começa a ranger. A proximidade da morte dela desperta em ele o desejo de viver – ou de amar. E é nesse espelho invertido que o romance encontra seu coração: dois seres que só começam a existir ao encarar o fim.

A ambientação de Barcelona é um personagem à parte. A cidade é descrita com uma sensualidade melancólica – suas ruas estreitas, praças esquecidas, cafés com cheiro de café rancio e vinho barato. Tudo parece úmido, desbotado, como se a luz nunca chegasse por completo. É uma cidade que esconde – e, portanto, acolha segredos. A própria arquitetura gaudiana, com suas curvas orgânicas e simbolismos esotéricos, aparece como metáfora do labirinto emocional em que as personagens se perdem.

Simbolicamente, o romance joga com a ideia de espelhos, duplicidades e sombras. O Homem tem duas esposas, duas vidas, duas filhas. Soares tem duas identidades: assassino e amante. A Mulher tem duas faces: a que quer morrer e a que quer ser salva. Até a morte aparece em duplicata – a desejada e a imposta. Nenhum personagem é apenas o que parece. E é nesse jogo de máscaras que o livro encontra sua força narrativa: a impossibilidade de se ser um só.

---

### *Apreciação crítica – Beleza e exaustão em dose única*

Mate-me Quando Quiser é, sem dúvida, uma obra ambiciosa. Anita Deak constrói uma prosa densa, sensorial, quase tátil – capaz de fazer o leitor sentir o cheiro do metro de Barcelona, o gosto de um vinho barato, o peso de um silêncio entre duas pessoas que já se conheceram demais. A linguagem é poética, mas sem perder a precisão cirúrgica. Há metáforas inesperadas, comparações ousadas, ritmo variado – tudo isso com um domínio técnico que impressiona, especialmente para um segundo romance.

O grande mérito da obra está em sua capacidade de manter o leitor em estado de tensão emocional constante. Não há alívio. Não há redenção fácil. A narrativa se arrasta como uma ferida aberta – e é justamente isso que a torna poderosa. A autora não teme o exagero, o melodrama, o abismo. E, ao fazê-lo, encontra uma verdade que muitas vezes a literatura “bem-comportada” evita: a de que o amor pode ser tão destrutivo quanto o ódio. E que, às vezes, a única forma de se libertar de si mesmo é destruindo o outro.

No entanto, essa intensidade também é o ponto fraco do livro. A repetição de temas, a insistência em certos estados emocionais (melancolia, culpa, desejo de fuga) e a duração excessiva de algumas cenas podem gerar exaustão no leitor. Há momentos em que a narrativa parece girar em círculos – como se as personagens estivessem presas em um looping emocional. Isso, é claro, pode ser intencional – uma forma de refletir o estado psicológico das personagens –, mas acaba por tornar o ritmo irregular e, às vezes, cansativo.

Outro ponto a se destacar é a construção feminina. As mulheres do livro – a Mulher, a Morena, a Loira – são complexas, falhas, intensas. Não há mocinhas nem vilãs. Há dor. Há desejo. Há solidão. E é nesse espaço cinzento que Deak encontra sua voz mais original: a de uma escritora que não julga suas personagens, mas as expõe – nuas, feias, humanas.

---

### *Conclusão – Uma ferida que não quer cicatrizar*

Mate-me Quando Quiser não é um livro fácil. Nem pretende ser. É uma obra que exige do leitor paciência, disposição emocional e tolerância ao desconforto. Mas, para aqueles dispostos a mergulhar, oferece uma experiência rara: a de se confrontar com o que há de mais intimo, mais secreto, mais inconfessável no ser humano. Não há respostas prontas. Não há redenção. Há, sim, uma espécie de compreensão – a de que todos somos, em algum nível, assassinos e vítimas de nós mesmos.

Anita Deak escreveu um romance que não quer ser amado – quer ser sentido. E, nesse intento, conseguiu criar uma das obras mais perturbadoras e sinceras da literatura brasileira recente. Não é um livro para todos. Mas, para os que se reconhecerem em suas páginas, será difícil esquecê-lo. Porque, no fim, Mate-me Quando Quiser não fala apenas da vontade de morrer – fala da dificuldade – e da urgência – de viver. Mesmo que doa. Mesmo que não haja sentido. Mesmo que seja preciso arrancar o corpo do outro para sentir que o próprio ainda pulsa.

Autor: Deak, Anita

Preço: 45.90 BRL

Editora: Gutenberg Editora

ASIN: B013VI6PQA

Data de Cadastro: 2025-12-01 21:36:12

TODOS OS LIVROS