*Resenha Crítica – Meninos, eu conto* – Antonio Torres**
(Gênero literário: contos infanto-juvenis com matiz realista-sertanejo; indicado para jovens a partir de 12 anos e leitores adultos sensíveis às literaturas regionais, memoriais e formativas)
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### Introdução
Antonio Torres nasceu em 1940 no então povoado de Junco, hoje Sátiro Dias, no sertão da Bahia. A infância sertaneja moldou sua vocação: primeiro como letrista de cartas alheias, recitador de Castro Alves em praça pública e ajudante de missa em latim; depois como jornalista, romancista e um dos mais premiados autores da geração que estreou entre os anos 1970. A coletânea Meninos, eu conto (Record, 1999; 10ª edição digital, 2011) reúne três narrativas curtas que compartilham um mesmo observador: o menino nordestino que vive entre a roça, a escola e o desejo de ser “gente grande”. O livro não é apenas literatura juvenil; é um pequeno memorial etnográfico sobre o mundo que desapareceu quando as antenas parabólicos chegaram ao sertão.
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### Desenvolvimento analítico
#### 1. Temas – A infância como resistência
Em todos os contos, a infância não é um estado de purece, mas um território de aprendizado doloroso sobre pertencimento, desejo e exclusão. O dinheiro que o padre dá ao narrador de “Segundo Nego de Roseno” vira símbolo de autonomia: pela primeira vez ele pode comprar (pão, camiseta) e, ao fazê-lo, experimenta o gosto amargo da escolha – algo que os adultos chamam de “se arrepender”. Já em “Por um pé de feijão”, a prosperidade agrícola é um milagre cotidiano que se desfaz num estalar de dedos: a “nuvem preta” que devora a plantação funciona como metáfora da inconstância histórica do sertão, onde a fé e o trabalho não bastam se “o diabo dispõe”. Por fim, “O dia de São Nunca” traduz a condição do corpo aleijado: o menino estrado é, ao mesmo tempo, oráculo e lixo – alguém que só existe pelo olhar piedoso dos outros. A narrativa expõe a carência de inclusão social pré-PCD: ele é visitado como se fosse monumento, fotografado como paisagem, roubado como relicário. A infância, portanto, é o espaço em que se aprende que o mundo não foi feito para a gente.
#### 2. Personagens – Retratos de um panteão sertanejo
Torres constrói tipos que ultrapassam o regionalismo estereotipado.
- *Nego de Roseno* é o “progresso” lento: ex-carregador de burro, agora dono de uma fubica que “quebra e atola mas chega”. Sua generosidade ao vender a camiseta por preço menor simboliza a economia do favor, onde o “bom freguês” vale mais que o lucro imediato.
- *Tio Ascendino*, o marceneiro-beato, encarna a religiosidade sincretizada: ora reza “benditos”, ora solta o “primeiro palavrão de sua vida” quando lhe roubam o Santo Antônio que esculpiu. A cena é cômica, mas traduz o desespero do artesão que vê sua fé convertida em mercadoria.
- *Donana*, mãe-rezadeira de “O dia de São Nunca”, personagem-chave para entender a mulher sertaneja: trabalha “a troco de litros de feijão”, crê que “Deus tira os anéis mas deixa os dedos” e, mesmo assim, questiona a própria fé quando o filho é depredado. Seu berro final – “Deste jeito não dá para se acreditar em nada” – ecoa como síntese do livro inteiro: a descrença não é ateísmo, é desamparo.
#### 3. Estilo – Oralidade, humor e violência em ponto de equilíbrio
Torres domina o turning da língua nordestina: mescla o cantado de Luiz Gonzaga (“sem radio e sem notícias das terras civilizadas”), a praga inventada (“que esse feijão se perca no cu do mundo”) e o latim de missa, tudo no mesmo parágrafo. O resultado é um texto que fala: o leitor ouve o ranger da enxada, o estalo do retrato Polaroid, o ranger da madeira sob a plaina. O humor, porém, não alivia – ao contrário, serve para tornar a violência mais pungente: o menino que ri da cara “de ovelha” da moça visitante é o mesmo que, horas depois, vê o santo ser furtado e sente “a boca encher de saliva” de vingança. A linguagem, portanto, funciona como disfarce estético: rimos para não chorar, mas choramos mesmo assim.
#### 4. Ambientação e simbologias – O sertão como personagem
O espaço é micro: Junco/Sátiro Dias, a estrada de terra, a venda de Josias Cardoso, a marcenaria, o quintal das bananeiras. Não há “o Nordeste” abstrato, mas o cheiro de bosta de burro misturado ao pão-de-milho quente. Dentro desse micro-espaço, objetos ganham aura:
- A *camiseta branca* de mangas cavadas é o primeiro “eu” moderno do narrador; rasgada, virá pano de chão, como se a modernidade também envelhecesse.
- O *caminhão de madeira* azul, presente do tio, é o veículo da imaginação: empurrado com uma forquilha, leva o menino a inventar estradas que não existem.
- A *lagartixa* é o duplo animal do protagonista aleijado: “Elas andam, eu não”. Quando os visitantes dizem “ui!” diante do réptil, revelam o nojo que também sentem do menino.
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### Apreciação crítica
#### Méritos
- *Voz narrativa consistente*: o menino-narrador nunca trai sua idade; quando filosofa, ainda usa o repertório limitado de quem só conhece o mundo até a segunda ladeira.
- *Economia dramática*: em poucas páginas, Torres monta cenas que poderiam ser romances (a queima do feijão, o roubo do santo). O silêncio do pai diante da perda, por exemplo, diz mais que páginas de lamento.
- *Diálogos vivos*: as trocas entre menino e Nego de Roseno, ou entre menino e visitantes, são modelares de como transcrever oralidade sem caricatura.
#### Limitações
- *Repetição de esquema*: os três contos obedecem à mesma curva – expectativa → perda → resignação → epifánia lírica. O efeito é poético, mas pode parecer formulaico ao leitor adulto mais exigente.
- *Ausência de perspectiva feminina infantil: as meninas aparecem como “mãe” ou “moca visitante”; não há narradora mirim. A infância do livro é, literalmente, meninos*.
- *Final aberto excessivo*: o prometido “dia de São Nunca” (nunca chegará?) é imagem bela, mas deixa o leitor juvenil desamparado; talvez um pós-guerra emocional fizesse falta.
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### Conclusão
Meninos, eu conto não é obra de “forma” – é obra de voz. A escrita de Torres não quer impressionar; quer relembrar. Relembrar que, antes do smartphone, havia o caminhão de lata azul; que, antes da “representatividade”, havia a vergonha de ser aleijado no estrado; que, antes do discurso de ódio, já se roubava santo de igrejinha. Ao colocar a infância como epicentro dessas transformações, o autor oferece ao leitor contemporâneo duas chaves: a da nostalgia (quem viveu o sertão) e a da descoberta (quem só conheceu a cidade). Em tempos de desinformação e pós-verdade, o menino que ainda acredita que “rezar é tirar o mal com três galhos de arruda” nos lembra que todas as grandes narrativas – fé, ciência, política – começam como conto: alguém que viu, alguém que contou, alguém que acreditou. A força do livro está aí: em nos fazer criança o suficiente para, ao fechar a última página, voltarmos a perguntar quem conta nossa versão do mundo – e por que acatamos.