Minha fama de mau

# *Minha Fama de Mau*: A Memória Desinibida de um Ícone do Rock Brasileiro

## Resenha Crítica

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*Título:* Minha Fama de Mau
*Autor:* Erasmo Carlos
*Editora:* Objetiva, 2008 (252 páginas)
*Gênero:* Memórias / Não-ficção

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### Introdução: O Homem Por Trás do Mito

Quando Erasmo Carlos resolveu contar sua história, não optou pelo tom reverencial e edulcorado típico das autobiografias de celebridades. Minha Fama de Mau é, antes de tudo, um exercício de desmistificação: o autor, um dos pilares do rock nacional e parceiro inseparável de Roberto Carlos na Jovem Guarda, abre mão da pose de ídolo para se apresentar como o menino pobre da Tijuca, o adolescente frustrado, o jovem em busca de identidade. Publicado em 2008 pela Editora Objetiva, o livro reúne memórias de infância e juventude — dos primeiros anos na Zona Norte do Rio de Janeiro até os primórdios da carreira musical — com uma prosa direta, humorística e deliberadamente desprovida de filtros.

O propósito central da obra vai além do simples registro biográfico. Erasmo constrói um retrato de época: o Rio de Janeiro dos anos 1940 a 1960, com suas vilas operárias, bondes, cinemas de bairro e os primeiros ecos do rock and roll que transformariam uma geração. Ao mesmo tempo, oferece uma reflexão sobre a construção da identidade — tanto a sua, como artista, quanto a de uma geração que encontrou na música uma forma de rebeldia e afirmação.

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### Ideias Centrais: Da Tijuca ao Palco

A estrutura narrativa de Minha Fama de Mau organiza-se em seis capítulos, mas o PDF analisado concentra-se especialmente nos dois primeiros: "Que turma mais maluca, aquela turma da Tijuca" e "Eu sou terrível". Essa escolha editorial privilegia as origens — e é nas origens que reside o núcleo temático do livro.

O primeiro eixo central é a *infância na classe trabalhadora carioca. Erasmo nasceu em 1941 e cresceu na rua do Matoso, na Tijuca, em um cenário de pobreza modesta mas não degradação. A mãe, Maria Diva Esteves, trabalhava como assistente de enfermagem do Samdu; o padrasto, Augusto, representava a figura autoritária e distante. O autor descreve com precisão o casarão decadente onde morou, os sobrados geminados, o bonde 51, o comércio de bairro — uma topografia afetiva que serve de palco para as primeiras aventuras. A descrição não é nostálgica no sentido meloso, mas evocativa e sensorial*: o cheiro da cera de vela no depósito do Seu José, o gosto do mingau de carvão da "Timbolina", o som da vitrola de Timbó tocando Adoniran Barbosa.

O segundo eixo é a *formação da tribo juvenil*. A "turma da Tijuca" — Erasmo, Renato Caravita, Tim Maia, Raul, Roberto Carlos, entre outros — constitui o verdadeiro protagonista coletivo do livro. São jovens pobres, ávidos por rock and roll, Elvis Presley e, mais tarde, João Gilberto. A amizade com Roberto Carlos, apresentada de forma quase casual ("O nome do cara do Lins era Roberto Carlos"), é tratada sem a reverência que o tempo impôs: eram dois garotos que se reconheciam na mesma fome musical. A parceria que mudaria a história da música brasileira nasce de uma cumplicidade de bairro, não de um encontro de gênios predestinados.

O terceiro eixo, e talvez o mais surpreendente para quem espera uma autobiografia convencional, é a *corporalidade sem pudor. Erasmo fala abertamente de sua fimose, da cirurgia aos 15 anos, do esguicho urinário em "V" que virou chacota entre os amigos, das primeiras experiências sexuais, da masturbação, da Timbolina (uma mistura caseira para alisar cabelo que queimou seu couro cabeludo). Não há aqui o voyeurismo barato das tell-all* biografias, mas sim uma *vontade de desmistificar o corpo masculino* e suas vergonhas adolescentes. O humor é o antídoto contra o constrangimento: "Passei a mijar assim depois que operei a fimose", declara ele, como quem comenta o tempo.

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### Análise Crítica: Estilo e Estratégia Narrativa

O grande mérito de Minha Fama de Mau reside na *voz narrativa*. Erasmo Carlos constrói uma persona literária que dialoga com a oralidade carioca: frases curtas, diálogos diretos, interjeições, gírias da época ("vapt!", "figura", "bicho"). A prosa tem ritmo, quase como uma canção — o que não surpreende vindo de um compositor. Os capítulos são subdivididos em seções breves, com títulos impactantes ("É do careca que elas gostam mais", "O trauma do bife voador", "O zumbi da escola"), o que facilita a leitura e cria uma sensação de episódios televisivos.

A estratégia de *começar pelo fim* — o prólogo situa-se em 1965, com Erasmo já famoso, assistindo ao último capítulo da novela Direito de Nascer ao lado de Isabel — funciona como gancho narrativo. O leitor sabe que aquele rapaz da escada se tornará estrela; o prazer está em descobrir como. Essa estrutura em flashback, porém, não se sustenta ao longo de todo o livro: os capítulos subsequentes parecem seguir uma ordem mais ou menos cronológica, da infância à juventude.

O tom *humorístico-autodepreciativo* é a marca registrada. Quando descreve a campanha de pichações contra o "Careca" — um rapaz mais velho que namorava Célia Maria, objeto de desejo da turma —, Erasmo assume a mesquinhez juvenil com graça: "Criamos um monstro. Fizemos do Careca um ídolo." A operação contra o rival, que incluía desde cartazes até ligações para programas de rádio, é contada como uma epopeia cômica, com o desfecho irônico de que o namoro só se fortaleceu. O autor não se poupa: é tão implacável consigo mesmo quanto com os outros.

Contudo, essa leveza tem um preço. Em diversos momentos, o livro *evita aprofundamentos psicológicos*. A relação com o padrasto Augusto, descrito como "sisudo" e autoritário, é esboçada mas não desenvolvida. A figura do pai biológico, praticamente ausente, não recebe a reflexão que mereceria. O autor prefere o episódio pitoresco à análise introspectiva — o que torna a leitura ágil, mas também superficial em alguns trechos. Quando Erasmo menciona que, aos 9 anos, engoliu um besouro ao fugir de um tumulto político e que, desde então, passou a "odiar ainda mais a política", a conexão causal é tão absurda que soa como piada — mas é apresentada sem ironia aparente. O leitor fica incerto: isso é humor ou é uma verdadeira crença do autor? A ambiguidade, deliberada ou não, impede que o livro alcance camadas mais profundas de reflexão.

Outro aspecto problemático é o *tratamento das mulheres*. Embora Erasmo reconheça a Lilica como figura central da turma — "nosso anjo, nosso talismã e nosso tesouro" —, a descrição dela como alguém que "dá para todos eles" reforça estereótipos de época sem questioná-los. As namoradas e objetos de desejo aparecem como função do protagonismo masculino: Isabel é "boa demais", as irmãs Célia são "pudim de caramelo" e "gelatina de framboesa". O olhar é o de um adolescente dos anos 1950, o que é compreensível enquanto registro, mas o narrador adulto não oferece contraponto ou reflexão crítica sobre essa perspectiva.

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### Contribuições e Relevância

Minha Fama de Mau preenche uma lacuna importante na bibliografia sobre a música popular brasileira. Enquanto a Jovem Guarda foi amplamente documentada por historiadores e jornalistas, faltava o relato de quem esteve no centro do furacão — e não como mero coadjuvante de Roberto Carlos, mas como protagonista de sua própria trajetória. O livro recupera a *dimensão humana* de um período mitificado: mostra que, antes dos ternos brancos e das multidões, havia garotos pobres dividindo um violão de cravelhas de pau, sonhando com cabelo igual ao de Elvis e roubando chumbo de casarões abandonados para comprar calças na Ducal.

A obra também é valiosa como *documento etnográfico*. A descrição do Rio de Janeiro das décadas de 1940 e 1950 — o depósito do Seu José, o cinema Madrid, o bar Divino, o cemitério do Caju como local de encontros amorosos — constrói um painel social detalhado. O autor tem o olhar de quem viveu: não precisa pesquisar em arquivo porque a memória é corporal.

A parceria com Roberto Carlos, apresentada sem a tensão que a biografia oficial às vezes sugere, oferece uma visão *desarmada da criação artística*. Não há aqui a disputa de egos, mas a cumplicidade de quem dividia o mesmo mundo. Quando Erasmo descreve o primeiro encontro — Roberto tocando rocks americanos no quarto da avó Maria Luiza —, a cena tem a simplicidade dos grandes encontros: dois garotos que se reconheceram.

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### Limitações

O principal limite de Minha Fama de Mau é sua *relutância em confrontar as sombras*. O livro menciona, de passagem, o uso de drogas ("experimentamos cocaína"), mas não desenvolve o tema. As relações amorosas adultas, os conflitos profissionais, a fama propriamente dita — tudo isso parece reservado a um volume que nunca veio (o livro termina nos primórdios da carreira). A estrutura fragmentada, embora ágil, impede uma arquitetura narrativa mais ambiciosa. Cada seção funciona como uma anedota isolada; a soma delas não necessariamente constrói um arco dramático coeso.

Além disso, o *tom de memoir confessional* ocasionalmente desliza para o autoelogio disfarçado. Quando Erasmo descreve sua performance no show de Rita Pavone em 1963 — "estou agradando em cheio", "o povo está gostando!" —, a autossatisfação é tão explícita que o leitor moderno pode sentir certo desconforto. A cena do ônibus, em que ele deixa a cabeça para fora da janela para desalinhar o cabelo alisado, é tocante na ingenuidade; a descrição do público ovacionando já soa menos genuína.

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### Conclusão

Minha Fama de Mau é um livro de memórias que cumpre com competência seu papel de *testemunho de época e de vida*. Erasmo Carlos prova ser um narrador talentoso, capaz de transformar experiências ordinárias — uma cirurgia de fimose, uma pichação juvenil, um bife que voa da mesa — em episódios literários com humor e ritmo. A obra é especialmente valiosa para quem se interessa pela história da música brasileira, pela sociologia da juventude urbana ou simplesmente por uma boa história bem contada.

No entanto, o leitor que busca uma meditação profunda sobre a fama, a arte ou a existência não a encontrará aqui. Erasmo Carlos optou pela leveza, pelo relato epidérmico, pela anedota que ilumina um momento sem necessariamente explicá-lo. É uma escolha legítima — e que torna o livro acessível, divertido e, em última instância, *sincero em sua superficialidade*. Como o próprio autor sugere no título, sua fama de "mau" é, afinal, uma construção: o livro desmonta o mito não para revelar um santo, mas para mostrar um garoto comum que, por acaso e talento, se tornou extraordinário. E talvez essa seja a maior contribuição da obra: a demonstração de que os ídolos também mijam em "V" — e que essa humanidade, longe de diminuí-los, os aproxima de nós.

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*Nota:* Resenha baseada exclusivamente no conteúdo do PDF fornecido, que corresponde a aproximadamente os dois primeiros capítulos da obra completa.

Autor: Carlos, Erasmo

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Editora: Objetiva

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Data de Cadastro: 2026-04-27 18:25:38

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