Nu, de botas

*Resenha Crítica Analítica*
*Obra:* Nu, de Botas
*Autor:* Antonio Prata
*Gênero Literário:* Crônicas / Memórias Fragmentadas / Literatura Autoficcional
*Classificação Indicativa:* Adolescentes (14+) e adultos, especialmente leitores interessados em literatura contemporânea, infância vivida nos anos 1980-1990 e crônicas com forte carga emocional e humor ácido.

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### Introdução

Antonio Prata é um dos cronistas mais afiados da literatura brasileira contemporânea, conhecido por seu estilo irônico, sensível e profundamente pessoal. Em Nu, de Botas, o autor reúne crônicas que funcionam como fragmentos de uma memória em construção, onde a infância é revisitada com olhar adulto, mas sem perder a verve lúdica e o desamparo típico da infância. Publicado originalmente em 2013, o livro nasce de uma coluna escrita para a Folha de S.Paulo, mas vai além do registro jornalístico: é uma obra de reconstituição afetiva, onde o humor é arma e escudo para lidar com as feridas do passado.

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### Desenvolvimento Analítico

*1. Temas: a infância como território de desconexão e descoberta*

O fio condutor de Nu, de Botas é a infância vivida em São Paulo entre os anos 1980 e 1990, com suas referências culturais precisas — desde o Bambalalão até o cometa Halley, passando por Bozo, Playmobil e figurinhas da Copa de 82. Mas Prata não se contenta em nostalgia: ele desmonta a infância como um período de desencontros, violências sutis e aprendizados dolorosos. A obra aborda temas como a primeira descoberta da sexualidade, a morte, a separação dos pais, a solidão, a vergonha corporal, o desejo de aceitação e a formação da identidade masculina em um meio de classe média urbana.

Em crônicas como Bom menino e Mau menino, o autor explora a tensão entre obediência e transgressão, mostrando como os pequenos atos de rebeldia (fazer xixi fora do penico, riscar a parede com faca) são formas de autoria em um mundo onde tudo é imposto. Já em Estimação, a série de mortes de animais de estimação funciona como metáfora da fragilidade dos laços afetivos e da impotência infantil diante do abandono e da perda.

*2. Personagens: o “eu” fragmentado e o mundo ao redor*

Não há personagens no sentido tradicional, mas sim uma multiplicidade de vozes que orbitam o narrador-infância. A mãe, a empregada Vanda, o pai escritor, os vizinhos (Henrique, Rodrigo, Fabio Grande), as irmãs e os colegas de escola compõem um painel sociológico da infância de classe média paulistana. Mas todos são filtrados pelo olhar do narrador, que os observa com mistura de inveja, desconfiança e desejo de pertencimento.

A figura da mãe é central: ao mesmo tempo protetora e distante, ela representa a ordem moral e afetiva do lar, mas também o primeiro limiar da desilusão. Já Vanda, a empregada, é a voz do mundo real, da pobreza, da sabedoria popular, e funciona como contraponto às ilusões da infância privilegiada. O pai, por sua vez, aparece como figura ausente, mas também como modelo de identidade masculina — escritor, divorciado, com uma vida que o filho apenas entreve.

*3. Estilo narrativo: humor como máscara e método*

O estilo de Prata é o grande trunfo da obra. Ele combina humor ácido com sensibilidade lírica, construindo frases que parecem simples, mas carregam camadas de significado. A linguagem é coloquial, mas nunca rasteira; há um cuidado estilístico que lembra Clarice Lispector em A Hora da Estrela, especialmente na forma como o narrador infantil observa o mundo com olhar desconfiado e poético.

O uso da repetição, da hiperbole e do contraponto entre o trivial e o existencial são marcas recorrentes. Em Cueca I e Cueca II, por exemplo, a recusa em usar cueca vira um ato de resistência política, quase existencial — uma forma de manter o corpo livre das armaduras sociais. A crônica Africa, por sua vez, mostra a infância como espaço de delírio geográfico e afetivo: dois meninos tentam atravessar o mar de balsa para chegar à África, como quem foge de si mesmo.

*4. Simbologias: o corpo, a roupa e o olhar*

O título Nu, de Botas é emblemático: a nudez representa a vulnerabilidade, a autenticidade, o corpo sem máscaras; as botas, por sua vez, são a fantasia, o desejo de poder, a tentativa de ser herói em um mundo que não oferece espaço para isso. Ao longo do livro, o corpo infantil é um território de disputas: a vergonha de ser nu, a recusa em usar cueca, o medo do coco, o desejo de ter um corpo adulto.

O olhar também é símbolo recorrente: o menino observa o mundo com olhos arregalados, mas é também observado, julgado, classificado. A infância é, assim, um espaço de vigilância constante — da mãe, da escola, da televisão, dos amigos. E a literatura surge como forma de escapar desse olhar, de reconstruir o passado com outras regras.

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### Apreciação Crítica

*Méritos literários*

Nu, de Botas é uma obra de rara sensibilidade. Prata consegue transformar memórias aparentemente triviais em narrativas universais, com um equilíbrio magistral entre humor e dor. A estrutura fragmentada — em crônicas que podem ser lidas isoladamente — não compromete a unidade emocional do livro; ao contrário, reforça a ideia de uma identidade construída em pedaços, como um quebra-cabeça que nunca se completa.

O uso da linguagem é outro ponto alto. Prata evita o tom saudosista ou piegas, optando por uma voz que ri do passado, mas também se compadece dele. A infância é vista com olhar adulto, mas sem traição — o autor não impõe sabedade retrospectiva, mas respeita a lógica interna do mundo infantil.

*Limitações*

O livro pode, em alguns momentos, parecer repetitivo para quem não está familiarizado com o formato de crônicas. Algumas narrativas têm desfechos semelhantes — a perda, a vergonha, a descoberta — e podem gerar uma sensação de circularidade. Além disso, o humor ácido pode não agradar a leitores mais sensíveis, especialmente nas crônicas que lidam com morte, violência ou sexualidade infantil.

Outro ponto é que a obra é fortemente situada em um tempo e lugar específicos — a classe média paulistana dos anos 1980 — o que pode dificultar a identificação de leitores de outras gerações ou contextos sociais. No entanto, isso também pode ser visto como uma qualidade: a obra é um documento afetivo de uma época, um retrato geracional.

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### Conclusão

Nu, de Botas é um livro que fala sobre a infância sem falar para a infância. É uma obra para adultos que já foram crianças — e que ainda carregam, em algum canto, o menino nu, de botas, que um dia quis ser herói, mas descobriu que o mundo não cabia em suas fantasias. Antonio Prata não apenas recorda: ele reinventa. E, ao fazer isso, nos oferece uma espelho — não exato, mas emocionalmente verdadeiro — de quem fomos, do que perdemos e do que ainda podemos resgatar.

Para o leitor contemporâneo, Nu, de Botas é um convite a olhar para trás sem vergonha, a rir do passado sem menosprezá-lo, a aceitar que a infância não foi um paraíso perdido, mas um terreno de descobertas dolorosas e necessárias. É literatura que não se impõe, mas acolhe — e que, como as botas do título, ainda nos serve, mesmo que já não nos caiam bem.

Autor: Prata, Antonio

Preço: 34.51 BRL

Editora: Companhia das Letras

ASIN: B00GBE0PCW

Data de Cadastro: 2025-12-04 20:03:34

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