O ano em que me tornei psicanalista

*Resenha Crítica Analítica*
*Obra:* O ano em que me tornei psicanalista
*Autor:* Tiago Mussi

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*Introdução – O livro, o autor e o gesto de escrever-se*

Publicado em 2023 pela editora Blucher, O ano em que me tornei psicanalista é o terceiro livro de Tiago Mussi, médico-psiquiatra e psicanalista carioca, mas o primeiro em que ele abandona a ficção para se arriscar na zona fronteiriça entre memória, ensaio e literatura de formação. O título sugere um relato cronológico e linear; a leitura desmente: o que encontramos é uma tessitura de vozes, tempos e lugares que se entrelaçam como numa análise propriamente dita. O livro nasce do impasse – clínico, existencial e de linguagem – de um jovem analista diante de sua primeira paciente “oficial”. A partir desse nó, Mussi constrói um texto que fala ao mesmo tempo de transferência, dor, prazer e escrita, sem jamais esquecer que o leitor também ocupa uma poltrona, ainda que invisível.

Gênero: memória literária / ensaio autobiográfico / bildungsroman clínico.

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*Desenvolvimento analítico – O divã como espelho caleidoscópico*

A narrativa organiza-se em cinco capítulos – “O método”, “As entrevistas preliminares”, “A análise”, “A supervisão” e “A escrita” –, mas o leitor logo percebe que a ordem é antes musical que lógica: temas reaparecem em variações, lembranças de infância interrompem descrições de sessão, e o nome da paciente (M.Q., “Madame”) ecoa como um refrão que não quer se deixar apagar. O efeito é o de um palimpsesto emocional: cada camada revela, ao ser raspada, outra tinta mais viva.

*1. Temas centrais*
a) Formação como ficção – Mussi interroga a ideia romântica de que “tornar-se analista” seria um desfecho. Mostra que a formação é um processo de desformação: desmontar-se para, talvez, ressurgir.
b) Transferência e contratransferência – O livro é uma aula viva sobre como o desejo do analisando toma o analista, arrastando-o para cenas que não escolheu. A paciente seduz, ameaça abandono, presenteia com lingerie, invade os sonhos do narrador. A clínica vira thriller emocional.
c) Escrita como terceira margem – Se a análise tem dois sujeitos, o livro propõe um terceiro: o leitor. A escrita surge como espaço de metabolização do que não cabia nem no divã nem na supervisão.

*2. Construção das personagens*
- Narrador-Tiago: figura em devenir, dividida entre o desejo de curar e o medo de ferir, entre a vontade de ser “bom analista” e a tentação de ser “pai salvador”.
- M.Q.: construída por reticências. Nunca a vemos inteira; recebemos fragmentos de corpo, voz, sonhos. A ausência parcial é estratégica: preserva a ética clínica e, ao mesmo tempo, faz dela uma presença fantasmática.
- Fernando Rocha (analista didata) e Teresa Rocha (supervisora): duas figuras-ponte entre o saber oficial e o saber que nasce na experiência. Ambos são desenhados com economia, mas cada frase que lhes é atribuída fere ou acolhe o narrador como interpretação viva.

*3. Estilo e linguagem*
Mussi domina um registro que oscila entre o coloquial carioca e a densidade conceitual freudiana, sem que nunca o segundo sufoque o primeiro. A prosa respira. Usa free indirect style para inserir a voz da paciente dentro da sua própria, criando efeito de surround emocional. A sintaxe alonga-se nos momentos de reverie, contrai-se nos diálogos de consultório, ganha ritmo de thriller quando a ameaça de abandono paira. Há eco de Thomas Bernhard nos desvãos de auto-ironia, e de Clarice Lispector nas interrogações que não esperam resposta.

*4. Simbologias e metáforas*
- O divã como navio – A imagem reaparece: o analista é “naufrago que se oferece como bússola”.
- A lingerie como texto – As peças que M.Q. envia são signos vestidos: carregam desejo, mas também medo de ser devorada.
- O triptycho de Francis Bacon – No capítulo “A escrita”, o autor estrutura o relatório clínico em torno de três telas de Bacon: a esfinge, o corpo sem cabeça, o grito. A pintura vira dispositivo de pensamento sobre masoquismo, luto e pulsação de morte.

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*Apreciação crítica – Méritos e limites de um corpo em análise*

*Méritos*
- Coragem ética – Publicar um livro em que o outro (a paciente) é coautor silencioso exige cálculo de equilíbrio entre revelação e sigilo. Mussi consegue manter o pacto analítico sem diluir a força literária.
- Originalidade de forma – Ao substituir o tradicional “caso clínico” pela narrativa de formação, o autor inventa um subgênero: o bildungsroman transferencial.
- Eloquência emocional – O texto não explica a dor, transmite a tensão dela. O leitor sente na pele o que é estar tomado por um desejo que não lhe pertence.

*Limites*
- Repetição e prolixidade – Alguns trechos de “A escrita” reiteram ideias já bem urdidas nos capítulos anteriores; a metalinguagem sobre o ato de escrever, ainda que sedutora, pode cansar quem não compartilha da paixão analítica.
- Risco de narcisismo reflexivo – O narrador, ao buscar desmontar seu próprio narcisismo, às vezes o reinstala sob o véu da autocrítica. A paciente corre o perigo de virar espelho para a sua epifania.
- Fecho aberto demais – A escolha de não “contar o fim” da análise é ética, mas pode frustrar leitores acostumados à curva clássica de plot.

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*Conclusão – A poltrona vazia e o leitor que se acomoda*

O ano em que me tornei psicanalista não é um livro sobre psicanálise; é um livro feito de psicanálise. Ele nos convida a ocupar a poltrona que fica em frente ao divã – a única que nunca está realmente vazia, pois carrega o olhar de quem lê. Ao fazer isso, Mussi cumpre o rito mais difícil da literatura: transformar experiência privada em bem público sem traí-la.

Para o leitor contemporâneo – assombrado por discursos prontos, ávidos por autoajuda e soluções –, a obra oferece o contrário: a possibilidade de habitar a incerteza sem perder a elegância. Mostra que tornar-se é, antes de tudo, desfazer-se – e que, nesse gesto, pode nascer um livro que não explica a vida, mas a acompanha.

Quem fecha a última página leva na bagagem uma pergunta leve, quase insuportável: “De que desejo eu sou feito, e quem está falando por mim quando falo?”
Não é pouco.

Autor: Mussi, Tiago

Preço: 35.99 BRL

Editora: Editora Blucher

ASIN: B0CLTHVFB4

Data de Cadastro: 2025-11-15 12:13:39

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