*Resenha Crítica – O Homem que Matou Getúlio Vargas, de Jô Soares*
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### Introdução
Publicado em 1999, O Homem que Matou Getúlio Vargas é uma das obras mais ambiciosas e irreverentes de Jô Soares, figura conhecida do público brasileiro por sua atuação como humorista e apresentador de televisão. Aqui, Soares desdobra-se como romancista, construindo uma narrativa histórica-ficcional que mistura humor ácido, sátira política e aventura picaresca. A obra se insere no gênero do romance histórico com forte carga de metaficção e humor negro, flertando também com o espionismo, o policial e o picaresco. A proposta é ousada: criar uma biografia fictícia de um assassino profissional que, ao longo de quatro décadas, tenta — e sempre fracassa — em sua missão de matar o presidente Getúlio Vargas. O resultado é um livro que tanto diverte quanto provoca, revelando um autor que não teme misturar erudição com escatologia, traição com ternura, e história com delírio.
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### Desenvolvimento analítico
A trama acompanha Dimitri Borja Korozec, nascido na Bósnia em 1897, filho de uma contorcionista brasileira e um anarquista sérvio. Desde o nascimento, carrega a "marca do destino": dois dedos indicadores em cada mão, o que o torna, aos olhos de uma seita radical, o "escolhado" para eliminar tiranos. Treinado desde a adolescência na mítica "Escola de Assassinos" nos Bálcãs, Dimitri é uma mistura de James Bond, Quixote e Mr. Bean: um assassino letal, mas desastrado, cuja pontaria é perfeita — exceto quando ele mesmo se torna o alvo.
A narrativa percorre quatro décadas de história mundial, entre 1914 e 1954, e atravessa continentes como um passeio de trem. Dimitri encontra figuras históricas como o arquiduque Francisco Ferdinando, Gavrilo Princip, Mata Hari, Al Capone, Jean Jaurès, Franklin Roosevelt e, claro, Getúlio Vargas. Mas ao contrário do que se espera de um romance histórico tradicional, aqui a história é um palco para o absurdo. Soares não se preocupa com fidelidade documental, mas sim com a possibilidade do absurdo dentro da história. A cada tentativa de assassinato, Dimitri falha por um detalhe cômico: escorrega em uma casca de banana, confunde o alvo, ou é salvo por sua própria incompetência. A história se constróie como uma sucessão de quases, uma tragédia grotesca que nunca chega ao clímax.
O estilo narrativo de Jô Soares é uma das grandes virtudes da obra. Ele alterna entre o tom epopeico e o nonsense, entre o lirismo e a escatologia. A linguagem é rica, rebuscada, permeada de referências eruditas — de Nietzsche a Bakunin, de Marie Curie a Picasso — mas sempre com um pé na banalidade. O humor é ácido, muitas vezes grotesco, mas nunca gratuito: serve para desmontar os mitos da história oficial, para expor a fragilidade dos poderosos e a estupidez dos ideológicos. A narrativa é também profundamente intertextual: há pastiches de capa de livro de aventura, cartas falsas, diários íntimos, notícias de jornais, e até uma paródia de literatura de cordel. Tudo isso compõe um mosaico narrativo que simula a própria loucura do século XX.
As personagens secundárias são caricaturas históricas, mas sempre com uma camada de humanidade surpreendente. Mata Hari é uma mulher fatal que, no fundo, só quer ser amada. Al Capone é um gângster brutal que chora ao ouvir ópera. Getúlio Vargas aparece pouco, mas sua presença é constante: é o big Other da narrativa, o alvo inalcançável, o pai que não pode ser morto. A figura de Vargas representa o Estado, a ordem, o poder que se metamorfoseia mas nunca morre. E é justamente por isso que Dimitri nunca consegue matá-lo: ele é o eterno retorno, o pesadelo da modernidade.
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### Apreciação crítica
O maior mérito de O Homem que Matou Getúlio Vargas é sua capacidade de rir da história sem jamais desrespeitá-la. Soares não apenas satiriza os grandes eventos do século XX — ele os reconta, os reinventa, os desmascara. A obra é uma espécie de anti-epopeia: onde deveria haver heróis, há bufões. Onde deveria haver tragédia, há farsa. E no centro de tudo, um homem que quer ser protagonista, mas é apenas uma nota de rodapé na história.
A linguagem é exuberante, mas nem sempre equilibrada. Há momentos em que o excesso de digressões eruditas prejudica o ritmo narrativo. Algumas passagens — especialmente as que envolvem seitas secretas, rituais de castração e teorias conspiratórias — soam como info dumping, como se o autor quisesse mostrar todo o seu conhecimento enciclopédico. Ainda assim, isso não compromete a experiência geral: o livro é, acima de tudo, um espetáculo de linguagem, um carnaval narrativo.
Outro ponto de destaque é a construção do personagem Dimitri. Ele é ao mesmo tempo caricatura e personagem trágico. Seu fracasso constante o humaniza. Sua obstinação o torna quase heróico. E sua solidão — de quem nunca pertence a lugar nenhum, de quem nunca é amado de verdade — é tocante. Em certo momento, ele escreve: "Sou um assassino sem vítimas". Essa frase resume toda a dor de quem quer mudar o mundo, mas só consegue mudar a si mesmo — e mal isso.
O livro não é para todos. Exige do leitor paciência com o excesso, tolerância ao grotesco, e disposição para rir do que não deveria ser engraçado. Mas, para quem se deixa levar, é uma experiência única: um romance que é ao mesmo tempo história, história e história — ou seja, ficção, relato e piada.
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### Conclusão
O Homem que Matou Getúlio Vargas é uma obra excessiva, delirante e necessária. Em tempos de revisões históricas e polarizações ideológicas, Jô Soares oferece uma visão que não é nem de esquerda nem de direita — é de cima para baixo, como quem observa a humanidade de uma janela de trem em alta velocidade. A obra não propõe uma versão "verdadeira" da história, mas sim uma versão possível — e é justamente aí que reside seu valor: ela nos lembra que a história não é feita apenas de vencedores, mas também dos perdedores, dos esquecidos, dos quases.
Para o leitor contemporâneo, o livro funciona como um espelho cômico e cruel do nosso tempo: onde os poderosos continuam intocados, onde os revolucionários continuam falhando, e onde os sonhos de mudança terminam em casca de banana. E, no meio disso tudo, um homem com doze dedos nos lembra: matar um tirano é fácil. O difícil é acertar o alvo.