O rei do mundo: Muhammad Ali e a ascensão de um herói americano (Coleção Jornalismo Literário)

*“O rei do mundo”, de David Remnick: o boxe como espelho da América em transe*

David Remnick, editor da The New Yorker e Pulitzer por Lenin’s Tomb, entrega ao leitor um retrato tão vibrante quanto doloroso de Muhammad Ali – ou, melhor, de Cassius Clay ainda em ebulição – nos anos que mudaram para sempre os Estados Unidos. Publicado originalmente em 1998 com o título King of the World e agora disponível em português pela Companhia de Bolso, o livro não é apenas mais uma biografia de ringue. Remnick usa o pugilismo como lente para examinar raça, poder, mídia e identidade numa sociedade que, entre 1962 e 1964, descobria que o “american way of life” tinha rachaduras profundas.

### 1. Dois lutadores, duas Américas
O material que chegou às minhas mãos corresponde às primeiras 200 páginas da edição brasileira – suficientes para perceber o recorte escolhido. Em vez de percorrer toda a carreira de Ali, Remnick concentra-se na travessia de dois combates: Sonny Liston × Floyd Patterson (1962) e, depois, Liston × Cassius Clay (1964). O autor entende que ali se decidia algo maior que cinturões: quem teria o direito de representar o “negro americano” diante da opinião pública. Patterson, o bom moço católico, integracionista, medroso; Liston, o ex-presidiário, símbolo do medo branco; Clay, o adolescente que ainda não se transformara em Ali, mas já desconfiava de que poderia reescrever o roteiro.

### 2. Estrutura em camadas
O livro opera como um jornalismo literário de alta costura. Remnick alterna cenas de ringue com reportagens sociais, perfis psicológicos e rápidas aulas de história. O resultado é um texto que se lê com o ritmo de um thriller: cada capítulo termina num gancho que nos leva às cordas seguintes. A prosa é direta, econômica, sem latimidades – exatamente o que se espera de um autor que aprendeu a escrever para revistas de grande tiragem. Ainda assim, há espaço para imagens inesquecíveis: Liston treinando ao som de Night Train com ar-condicionado em Miami Beach; Patterson fugindo de Chicago de barba postiça após ser nocauteado; Clay circulando de Cadillac rosa e branco, recitando versos que anunciam o futuro.

### 3. Boxe como metáfora racial
O grande mérito de Remnick é mostrar que os três protagonistas não eram apenas atletas: eram personagens que carregavam sobre os ombros as expectativas de brancos liberais, líderes religiosos, gangsters e políticos. A luta Patterson-Liston vira um plebiscito moral: o “negro bom” contra o “negro mau”. Quando Liston massacra Patterson em dois minutos e seis segundos, a vitória do “mal” deixa a NAACP em pânico e os mafiosos satisfeitos. Já Clay entra em cena como uma terceira via: o jovem que recusa os papéis oferecidos. Ele não quer ser nem o exemplar disciplinado de Patterson nem o monstro de Liston – quer ser ele mesmo, com nova religião, novo nome e nova boca. Remnick demonstra que, para isso, precisava primeiro destruir o mito de Liston e, depois, o de Patterson.

### 4. Fontes e pesquisa
O autor conduziu dezenas de entrevistas – desde ex-sparrings até Geraldine Liston – e garimpou arquivos de jornais, cartas e gravações de rádio. A riqueza de detalhes impressiona: sabemos que Liston usava toalhas dentro do robe para parecer mais imenso; que Clay comprara um paraquedas antes de voar para Roma; que o jantar favorito de Liston era camarão, bife e cheesecake. São pormenores que, em outro livro, soariam fúteis. Aqui, funcionam como pigmentos de uma tela maior: o leitor sente o cheiro do ringue, o gosto do sangue na boca, o medo que subia pelas pernas de Patterson antes do gongo.

### 5. Limitações do recorte
Como se trata apenas do miolo inicial da obra, a resenha precisa reconhecer limites. Não há, nestas páginas, a conversão de Clay ao islamismo, a recusa ao Vietnã, a volta triunfal sobre Foreman em 1974. Ou seja, o “rei” ainda está sendo coroado. Isso pode frustrar quem busca o panorama completo da trajetória de Ali. Outro ponto: Remnick é tão habilidoso em recriar cenas que, por vezes, o leitor perde a noção do que é citação literal e do que é reconstrução romantizada. O autor admite, na nota final, que “diálogos foram condensados ou levemente rearranjados para maior clareza”. Para o padrão jornalístico atual, isso soaria como infração; para o leitor de literatura de não-ficção, é preço aceitável pelo prazer da narrativa.

### 6. Estilo e ritmo
A tradução de Celso Nogueira é ágil, sem travamentos ou estrangeirismos desnecessários. Termos técnicos do boxe – jab, uppercut, clinch – são mantidos em italiano, o que ajuda a preservar o sabor original. A diagramação da bolso ajuda: capítulos curtos, espaçamento generoso, margens que convidam a anotação. É livro para ser lido no metrô, na praia ou – por que não? – entre rounds de uma luta na TV.

### 7. Para quem é esta leitura?
Recomendo O rei do mundo a três tipos de leitores:
1) Os fãs de esporte que cansaram de biografias celebratórias e querem entender como a política invade o ringue;
2) Quem estuda (ou apenas sente) a questão racial americana e precisa de um caso concreto para entender o peso dos estereótipos;
3) Os amantes de storytelling: aqui há mestria em construir tensão, personagens e desfecho – mesmo que o desfecho já seja conhecido.

### 8. Conclusão
David Remnick não escreveu “o” livro sobre Muhammad Ali – ainda faltam as páginas que mostrarão o herói em sua fase mais radical, exilado e, depois, beatificado. Mas entregou “um” livro imprescindível: o retrato do momento em que o esporte parou de ser apenas entretenimento e virou palco de revolução. Ao escolher como fio condutor os combates que consagraram e derrubaram Sonny Liston, o autor mostra que, nos Estados Unidos dos anos 1960, o ringue era o lugar onde o país discutia quem tinha direito de falar, de lutar e de ser. O rei do mundo é, portanto, menos sobre socos e mais sobre voz: aquela que Clay descobriu ter e que, em 1964, começava a usar para mudar o mundo – um round de cada vez.

Autor: Remnick, David

Preço: 39.90 BRL

Editora: Companhia das Letras

ASIN: B009WW848C

Data de Cadastro: 2026-01-13 12:31:06

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