O romântico incorrigível

*Resenha Crítica – Um Romântico Incorrigível* (Devan Sipher)**
Gênero: romance contemporâneo / comédia de costumes
Classificação: 16+ (idioma, insinuações sexuais, temas adultos)

*Introdução*
Devan Sipher estreou na ficção em 2012 com The Wedding Beat, traduzido para o português como Um Romântico Incorrigível. O título já anuncia o tom: uma comédia romântica que finge ser leve, mas carrega, sob o verniz de piadas sobre buquês e bufês, uma indagação dolorosa sobre solidão, escolhas e envelhecimento na metrópole dos sonhos consumíveis. Publicado originalmente nos Estados Unidos, o livro chega ao Brasil pela Verus, em tradução fluida de Ana Death Duarte, e encontra eco imediato numa geração que assiste a casamentos pelo Instagram ao mesmo tempo em que calcula o preço do aluguel sozinha.

*Desenvolvimento analítico*
A história segue Gavin Greene, repórter da coluna de casamentos do jornal The Paper – um The New York Times disfarçado –, homem de trinta-e-poucos, romântico crônico, que escreve sobre o amor alheio enquanto dorme em um sofá-cama. A ironia é o motor narrativo: quanto mais Gavin celebra a felicidade dos outros, mais flagrante fica sua própria carência. O enredo se articula em torno de três fios: o trabalho (reportagens sobre noivas em pânico), a família (pais obcecados por planejamento imobiliário e um avô hospitalizado na Flórida) e a vida amorosa (o encontro com Melinda, jornalista viajante, e a subsequente caçada desastrada para reencontrá-la).

Sipher constrói Nova York como um personagem: a cidade é ao mesmo tempo promíscua e indiferente, oferecendo encontros fortuitos em festas de rooftop e desaparecendo com eles na manhã seguinte. O espaço urbano funciona como metonímia da mobilidade líquida dos relacionamentos: tudo está disponível, nada é garantido. A ambientação dos casamentos – do suntuoso templo judaico ao barco-anfiteatro ancorado no Hudson – serve como contraponto cênico à vida desconjuntada de Gavin; as cerimônias são coreografias de felicidade que, vistas de perto, revelam costuras desfeitas: damas de honra grávidas, sogros embriagados, noivos em crise de pânico.

O estilo é conversational, povoado de observações mordazes. Sipher – que, na vida real, escreveu a coluna de casamentos do New York Times – empresta a Gavin uma voz que lembra o bom humor auto-depreciativo de Nick Hornby ou Nora Ephron. A linguagem oscila entre o sarcástico e o lírico, com imagens inesperadas (“a lagosta envernizada com goma-laca parecia estar de olho em mim”) que impedem que a crônica romântica caia no meloso. A estrutura, por sua vez, é episódica: capítulos curtos, quase sketches, que funcionam como postagens de blog – uma escolha formal que espelha a fragmentação da atenção contemporânea e também a própria fragmentação afetiva do protagonista.

As personagens femininas são o ponto alto: não apenas Melinda, cuja independência e medo de alturas funcionam como metáfora do equilíbrio entre ousadia e vulnerabilidade, mas também Hope, médica amiga de Gavin, que serve como espelho invertido – ela também quer amor, mas prefere a solidade controlada a ilusões caras. Já os homens são retratados com benevolência cruel: Gavin é um Peter Pan em fase de queda livre; Mike Russo, guru de relacionamentos, vende conselhos que não aplica a si mesmo; o avô Bernie, ex-piloto agora dependente, encarna o aviso de que até os mais audazes acabam precisando de alguém para lhes dar banho.

*Apreciação crítica*
O maior mérito do livro está em sua capacidade de misturar piada e dor sem que uma neutralize a outra. Sipher recusa o final fechado de comédia romântica clássica: o “felizes para sempre” aqui é negociado, suspenso, talvez adiado – e isso o aproxima da realidade do leitor urbano, para quem o amor muitas vezes termina no “vamos marcar algo depois”. A trama, porém, não escapa de certa repetição: a sucessão de encontros falhos, reuniões de redação e festas de casamento pode cansar quem busca densidade psicológica ou viradas narrativas mais ousadas. O ritmo decai no terço final, quando a busca por Melinda se arrisca em terreno sitcom – escadinhas de incêndio, e-mails não respondidos, coincidências de novela.

A linguagem, tão afiada nos diálogos, perde força nas repetições de piadas com pescoço fino e vodka de frutas vermelhas; o autor parece temer que o leitor não pegue a primeira referência e insiste até o excesso. Ainda assim, o conjunto funciona porque a voz narrativa é autêntica: Gavin fala como quem já contou essa história de madrugada num bar, sabendo que o final pode mudar conforme o número de drinques.

*Conclusão*
Um Romântico Incorrigível não quer ensinar nada sobre o amor – e é aí que acerta. Ao invés de manualidades, oferece uma radiografia do desejo contemporâneo: a ansiedade de quem vê relógio biológico e relógio do Instagram sincronizados; a vergonha de querer companhia sem parecer necessitado; a delicadeza de escrever sobre a felicidade alheia enquanto a própria se esgarça. O leitor termina a última página com a sensação de que Gavin – e talvez Sipher – ainda estão no meio da história, assim como nós. Em tempos de aplicativos que prometem almas-gêmeas em swipe, o romance propõe que a busca continua sendo, acima de tudo, um processo de autoconhecimento – e que, enquanto houver alguém disposto a escalar uma escada de incêndio por outro alguém, o romantismo não estará morto, apenas despenteado.

Autor: Sipher, Devan

Preço: 34.93 BRL

Editora: Verus

ASIN: B00B26SJY0

Data de Cadastro: 2026-01-23 18:20:37

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