Os porões da contravenção: Jogo do bicho e Ditadura Militar: a história da aliança que profissionalizou o crime organizado

*Resenha Crítica Analítica*
*Obra:* Os Porões da Contravenção – Jogo do Bicho e Ditadura Militar: A História da Aliança que Profissionalizou o Crime Organizado
*Autores:* Aloy Jupiara e Chico Otávio

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### *Introdução: o abismo entre a festa e o porão*

Em Os Porões da Contravenção, os jornalistas Aloy Jupiara e Chico Otávio mergulham nas entranhas do Rio de Janeiro para revelar uma aliança que, durante a ditadura militar (1964-1985), transformou o jogo do bicho – essa loteria popular ilegal – em uma máquina de poder, violência e influência. Publicado em 2015 pela Editora Record, o livro é resultado de uma série de reportagens publicadas originalmente no O Globo em 2013, ampliadas com base em documentos inéditos, depoimentos de ex-agentes, arquivos do Exército, da Polícia Federal e da Biblioteca Militar.

Não se trata de uma obra de ficção, mas de um *ensaio investigativo literário, que se equilibra entre o jornalismo narrativo, a crônica histórica* e a *literatura de não-ficção com densidade literária. O livro se aproxima, portanto, do novo jornalismo literário* – gênero que mistura rigor factual com estrutura narrativa, personagens complexos e tensão dramática, como em A Sangue Frio (Truman Capote) ou Os Demônios da Noite (Norman Mailer).

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### *Desenvolvimento analítico: o bicho como metáfora do Brasil*

O fio condutor da obra é a *metáfora do “bicho”* – não apenas como jogo de azar, mas como *sistema de poder paralelo, que se infiltra nas fissuras do Estado e se alimenta da corrupção, da violência e da omissão. O jogo do bicho, aqui, não é apenas um tema: é um personagem-coletivo, uma entidade mutante, que nasce nas ruas do Rio em 1892 e, ao longo do século XX, vai se transformando em empresa criminosa*, com departamentos de recursos humanos, logística, espionagem e até marketing – tudo isso sob a bênção (ou o olhar cúmplice) do regime militar.

A estrutura do livro é *fragmentada e coral, como um samba-enredo com muitos alas. Cada capítulo foca em uma figura-chave – como Capitão Guimarães, Anísio Abraão David, Castor de Andrade –, mas sempre inserida em uma rede de relações* que inclui militares, delegados, sambistas, políticos e torturadores. Essa escolha narrativa *espelha a própria lógica do crime organizado: não há heróis ou vilões absolutos, mas sistemas de lealdade, medo e interesse*.

Os autores usam uma *linguagem tensa, cinematográfica, com cortes rápidos, flashbacks e diálogos reconstruídos a partir de depoimentos. A ambientação é sensorial e opressiva: os porões da Vila Militar, as quadras da Beija-Flor, as praias de Piratininga, as salas de interrogatório com cheiro de mofo e café frio. O leitor sente* o peso das algemas, *ouve* o estalo do pau de arara, *cheira* o medo dos presos.

Simbolicamente, o livro sugere que *o bicho é o Brasil que o Brasil não quer ver. Ele é a versão sombria do “jeitinho”, a lógica do toma-lá-dá-cá* elevada à escala industrial. Ele é também *o espelho da ditadura: ambos operam por meio de sigilo, violência, impunidade e espetáculo. A diferença é que, enquanto o regime fingia moralidade, o bicho nunca mentiu sobre o que era*.

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### *Apreciação crítica: entre o fascínio e o náusea*

O maior mérito de Os Porões da Contravenção é *não romanticizar o crime. Ao contrário: ele desmistifica* a figura do “bicheiro bon vivant”, revelando-o como *empreendedor da morte*, alguém que financia escolas de samba para lavar dinheiro, que finca estacas no território como quem marca gado, que usa o carnaval como cortina de fumaça para desaparecimentos.

A linguagem é *precisa e densa, mas acessível. Os autores evitam o jargão militar ou policial, preferindo metáforas cruas e imagens fortes: “o corpo foi jogado no rio como lixo orgânico”, “a escola de samba virou um caixa eletrônico com pernas”. O ritmo é variado: há momentos de suspense investigativo, como na reconstrução do sequestro de Misaque e Jatobá, e momentos de melancolia trágica*, como no relato do suicídio de Nelson David, irmão de Anísio, no banheiro da quadra da Beija-Flor.

Como limitação, o livro *pode sobrecarregar o leitor* com a quantidade de nomes, siglas e datas. Em alguns trechos, a *fragmentação narrativa* dificulta a *imersão emocional* – é como assistir a um documentário com muitos cortes por segundo. Além disso, embora os autores *evitem o sensacionalismo, há uma tensão ética* em ler uma obra tão rica em detalhes sobre tortura, sequestro e morte – *o prazer estético se mistura ao desconforto moral*.

Outro ponto delicado é a *ausência de vozes femininas* com profundidade. As mulheres aparecem como *vítimas, amantes ou mães, mas raramente como agentes políticas ou criminosas. Isso reflete, talvez, a estrutura patriarcal tanto do crime quanto do regime, mas também limita a complexidade do retrato*.

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### *Conclusão: o bicho que ainda ronda*

Os Porões da Contravenção não é apenas um livro sobre o jogo do bicho: é um *raio-X da alma nacional, uma crônica do Brasil que se faz na calada da noite, com regras próprias, códigos de honra e silêncios comprados a preço de sangue. Ele mostra que a ditadura não acabou em 1985* – ela apenas *mudou de uniforme*, trocou o cassetete pelo terno, o DOI pelo DOPS do crime.

Para o leitor contemporâneo, a obra funciona como *um espelho invertido: ao invés de exaltar o “Brasil que deu certo”, ela expõe o Brasil que deu errado e foi premiado por isso. O bicheiro não está no porão – ele está na avenida, no comercial da TV, no financiamento de campanha, no samba-enredo que emociona a arquibancada*.

E, talvez, o maior susto do livro seja perceber que *o bicho não é uma aberração: ele é a lógica perversa do sistema, apenas mais honesto em sua desonestidade. Ele não mente. Já nós, mentimos para nós mesmos todos os anos*, quando aplaudimos o desfile da escola financiada pelo sangue.

Os Porões da Contravenção é, afinal, *um livro necessário, porque obriga o leitor a escolher: ou se finge de morto, como o avestruz da metáfora inicial, ou se olha o bicho nos olhos* – e admite que ele *ainda está solto, mais gordo, mais penteado, mais cantado*.
E que, talvez, *esteja cantando por nós*.

Autor: Jupiara, Aloy

Preço: 31.43 BRL

Editora: Record

ASIN: B01ACEFESQ

Data de Cadastro: 2025-06-08 21:31:43

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