Os ratos

*Resenha: O Labirinto da Sobrevivência em Os Ratos***

Publicado originalmente em 1935, Os Ratos, de Dyonélio Machado, permanece como um marco atemporal da literatura brasileira, desafiando gerações de leitores com sua prosa densa e angustiante. Escritor gaúcho que também exercia a psiquiatria, Machado constrói neste romance breve — composto por vinte e oito capítulos curtos que se desenrolam ao longo de um único dia — uma narrativa sufocante sobre a condição humana às portas da penúria. Ambientado em uma Porto Alegre ainda provinciana e cinzenta do início do século XX, o livro acompanha Naziazeno Barbosa, um modesto escriturário da Prefeitura, em sua jornada desesperada para obter cinquenta e três mil-réis e salvar o fornecimento de leite para seu filho enfermo.

A construção narrativa de Machado é, antes de tudo, um mergulho vertiginoso na interioridade. O autor abandona a linearidade tradicional em favor de um fluxo de consciência fragmentado, onde os pensamentos de Naziazeno se entrelaçam com as impressões sensoriais da cidade em uma espécie de monólogo interior desencadeado. A prosa é quiçá o maior personagem da obra: nervosa, entrecortada, obsessiva, reproduzindo mecanicamente a cadência trôpega de um homem que caminha sem destino certo, vapulando entre a vergonha e a necessidade. Ao optar por esse registro expressionista, Machado não apenas conta uma história de miséria, mas faz com que o próprio leitor experimente fisicamente a aflição do protagonista, através de parágrafos densos que se estendem como corredores sem saída e frases que escorregam entre o real e o delirante.

Naziazeno Barbosa emerge como um anti-herói por excelência, distante dos galhardos protagonistas românticos. É um homem mediocremente honesto, acuado pela responsabilidade familiar e pela ameaça constante de queda social. Sua busca pelos tais 53 mil-réis configura-se como uma epopeia rebaixada, onde o objeto do desejo não é a glória, mas a mera subsistência. Através de suas tentativas fracassadas — desde pedir emprestado a conhecidos relutantes até mergulhar no ambiente opressivo das casas de jogo —, Machado traça um mapa social da cidade, revelando uma teia de relações baseadas na desconfiança e no cálculo frio. Os personagens secundários — o misterioso Duque, o cínico Alcides, o imponente diretor — não são meros coadjuvantes, mas arquétipos de uma sociedade hierarquizada onde a solidariedade se transformou em mercadoria escassa.

A simbologia do título reverbera ao longo de toda a narrativa como uma metáfora complexa. Os ratos aparecem inicialmente como entidades sonoras no final da jornada, roendo madeiras e, simbolicamente, o dinheiro que Naziazeno conseguiu com tamanho esforço. Mas a imagem vai além: sugere a própria condição do protagonista, preso em um círculo vicioso de necessidades básicas, como um roedor acuado em seu próprio buraco. A cidade, por sua vez, configura-se como um labirinto hostil, onde as ruas se repetem, as praças se assemelham a arenas de humilhação e o asfalto urbano serve mais para aprisionar do que para conduzir. Essa atmosfera claustrofóbica aproxima Machado de autores como Dostoiévski e Kafka, embora o escritor gaúcho imprima uma marca singular ao tratar a miséria não como exceção dramática, mas como rotina sufocante.

Do ponto de vista estético, Os Ratos representa um feito notável de equilíbrio entre o compromisso social e a invenção literária. Machado evita o sentimentalismo barato ou o naturalismo rasteiro, preferindo uma abordagem que poderíamos chamar de expressionismo psicológico. A linguagem, embora requintada e frequentemente poética, nunca se distancia da matéria bruta da experiência humana. Cada frase é esculpida com precisão cirúrgica — talvez ecoando a formação médica do autor —, dissecando os sentimentos de vergonha, raiva contida e resignação com uma frieza que, paradoxalmente, intensifica o calor da identificação. O ritmo, deliberademente fragmentado, exige do leitor uma entrega total, podendo, contudo, afastar aqueles que buscam narrativas de fácil digestão ou enredos de redenção clara.

Se há limitações a apontar, talvez residam exatamente nessa densidade estilística que, em alguns momentos, comprime demasiadamente a narrativa, tolhendo a respiração do leitor de forma talvez proposital, mas desgastante. A circularidade temática — o eterno retorno às mesmas angústias — pode ser interpretada como monótona por quem espera developamentos dramáticos mais dinâmicos, embora essa mesma circularidade seja o centro conceitual da obra: a sensação de que a vida de Naziazeno é uma armadilha de onde não há escape verdadeiro.

Os Ratos transcende o específico contexto da Porto Alegre dos anos 1930 para falar sobre a condição universal do trabalhador urbano moderno, sobre a precariedade que assombra as existências sob o véu da ordem burguesa. Mais do que um documento histórico, o romance funciona como um diagnóstico perene da alma contemporânea, alertando para as formas sutis de violência social que desgastam o espírito humano. Ao final da leitura, não levamos apenas a história de um funcionário público em apuros financeiros, mas a representação vívida de como a dignidade se desgasta no atrito diário com a sobrevivência. É uma obra que inquieta, incomoda e, sobretudo, permanece.

*Gênero Literário:* Romance expressionista / Ficção psicológica urbana
*Classificação Indicativa:* 16+ (recomendado para leitores adultos e jovens interessados em literatura de densidade psicológica e análise social)

Autor: Machado, Dyonelio

Preço: 43.27 BRL

Editora: Todavia

ASIN: B0BHJJCP5Y

Data de Cadastro: 2026-01-29 16:55:09

TODOS OS LIVROS