Porque é que a América inventou o “nigger”? - Público

Porque é que a América inventou o “nigger”? - Público
I Am Not Your Negro quer ser o filme que James Baldwin nunca fez, a história da América a partir de três assassínios marcados pela luta racial. Recupera o Baldwin político e desafia a América a olhar-se no que tem de mais incómodo. A começar pela palavra proibida: Nigger.

I Am Not Your Negro começa por uma tentativa de dar corpo e voz ao homem a quem Toni Morrison, Nobel da Literatura em 1993, agradeceu ter-lhe dado a linguagem. “Deste-me a linguagem onde morar, um presente tão perfeito que parece invenção minha”, disse no funeral de Baldwin, à época considerado um dos grandes intelectuais americanos da segunda metade do século XX, mas que foi quase esquecido durante os últimos trinta anos. A sua história e a da sua obra são a de um conflito com o país onde nasceu. É a partir daí que Peck explora a ideia de casa, uma que a dado momento se tornou insuportável.

Contou isto em 1968, numa entrevista no programa The Dick Cavett Show. Peck foi buscar esse excerto para dar a voz, mas também revelar o sorriso aberto, o porte, as mãos, o olhar vivo e tudo o que isso diz da figura de James Baldwin. É dessa matéria que é feita a sedução de I Am Not Your Negro e também aquela onde reside toda a sua força e que pode ser sintetizada numa frase-diagnóstico: “A questão não é o que acontece com o Negro aqui ou com o homem negro aqui (...), a verdadeira questão é o que vai acontecer com este país.”