Se eu fechar os olhos agora

*Resenha Crítica Analítica*
*Título:* Se eu fechar os olhos agora
*Autor:* Edney Silvestre
*Ano de publicação:* 2009 (2ª edição revisada em 2011)
*Gênero:* Romance policial / Ficção histórica / Literatura brasileira contemporânea

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### *Introdução – O menino que viu demais*

Em Se eu fechar os olhos agora, Edney Silvestre constrói um romance que se equilibra entre o suspense psicológico, a crônica social e o coming-of-age de dois meninos de doze anos que, em uma manhã de 1961, tropeçam literalmente em um cadáver. A obra, ambientada no interior de Minas Gerais, durante os primeiros anos da ditadura militar, utiliza o formato do thriller para investigar não apenas um assassinato, mas também as feridas de uma sociedade que prefere fechar os olhos para suas próprias mutilações. O título, que remete ao gesto infantil de negar o medo, é também uma metáfora para a omissão coletiva: à medida que a narrativa avança, percebemos que o verdadeiro crime talvez não seja o que aconteceu no lago, mas o que a cidade escolheu não ver.

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### *Desenvolvimento analítico – O lago, a cidade e o corpo da mulher*

Silvestre organiza o romance em capítulos curtos, quase cinematográficos, que alternam entre a voz de Paulo – menino pobre, filho de açougueiro, marcado pela violência doméstica – e a de Eduardo, filho de ferroviário, mais tímido e observador. A descoberta do corpo de Anita, uma mulher loura, nua e mutilada, funciona como o epicentro de uma narrativa que se expande em círculos concêntricos: a investigação informal dos garotos, a prisão do marido (o dentista local), a falsa confissão, e, nas camadas mais profundas, a exposição de uma teia de abusos de poder, exploração sexual e hipocrisia moral.

A ambientação é um dos grandes trunfos da obra. A cidadezinha de Santa Beatriz – nome que carrega ironia cristã – é descrita com riqueza de detalhes sensoriais: o cheiro de sangue do açougue, o ruído dos teares da fábrica de tecidos, o calor úmido do lago, a poeira das estradas de terra. Mais do que pano de fundo, o espaço é um personagem ativo: ele sabe, ele cala, ele consome. A queimada que destrói a vegetação ao redor do lago, no clímax do romance, funciona como uma espécie de apagamento simbólico – a cidade tentando apagar as próprias pegadas.

Os temas centrais giram em torno da violência de gênero, da impunidade social e da construção do masculino tóxico. Anita – ou Aparecida, seu nome de batismo – é uma mulher que deseja, que transgride, que existe em um espaço que só tolera mulheres invisíveis. A mutilação de seu corpo (o seio cortado) não é apenas um ato de crueldade; é a materialização do desejo de punir a feminilidade que ousa se exibir. A narrativa, sem nunca ser panfletária, denuncia como a sociedade patriarcal também assassina ao silenciar, ao culpar, ao transformar a vítima em coisa.

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### *Apreciação crítica – O olhar que não fecha os olhos*

Silvestre, jornalista de formação, escreve com a precisão de quem sabe que cada palavra carrega peso. A linguagem é direta, quase oral, mas sem cair no regionalismo caricato. A escolha de narrar em terceira pessoa, mas com focalização interna nos garotos, permite que o leitor descubra junto com eles – técnica que gera tensão e, ao mesmo tempo, preserva a ingenuidade infantil. O ritmo é ágil, com capítulos que funcionam como scenes de um roteiro, mas o autor não abre mão de momentos líricos: a descrição do corpo de Anita, “com a boca entreaberta como se tivesse começado a sorrir”, é ao mesmo tempo horrível e poética, numa ambivalência que o livro soube sustentar.

Entre os méritos, destaca-se a capacidade de humanizar sem romantizar. Paulo e Eduardo não são herois; são crianças assustadas, curiosas, às vezes cruéis – como quando especulam sobre a anatomia da morta ou roubam objetos da cena do crime. A obra evita o easy empathy e, em vez disso, mostra como a violência também educa – como o medo molda o olhar. Outro acerto é a construção do “velho Ubiratan”, personagem que poderia cair no clichê do detetive solitário, mas ganha densidade ao carregar seu próprio passado de dor e culpa: ele também foi cúmplice, em outro tempo, de outras Anitas.

Como limitação, o romance talvez accelere demais o desfecho. A revelação final, embora coerente, é exposta em um monólogo da antagonista que, embora poderoso, soa um pouco teatral demais – como se o autor, após 300 páginas de sutileza, resolvesse explicar o que já havia sido tão bem sugerido. Além disso, o leitor mais familiarizado com o gênero policial pode sentir falta de red herrings mais ousadas – as pistas são, na maior parte, verossímeis demais, o que reduz o impacto da reviravolta.

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### *Conclusão – O corpo que não se apaga*

Se eu fechar os olhos agora é, acima de tudo, um livro sobre ver – e sobre o peso de ter visto. Ao final, os garotos não são mais crianças, mas tampouco são heróis. A cidade continua lá, com suas fábricas, suas missas, seus puteiros – e com novas Anitas, agora mais discretas. A força da obra está em não oferecer consolo. O leitor fecha o livro com a sensação de que algo foi arrancado dele – talvez a ilusão de que o passado pode ser enterrado junto com o corpo.

Para o leitor contemporâneo, a relevância é óbvia: vivemos um tempo em que imagens de violência contra mulheres circulam em loops, mas os nomes – e as histórias – se perdem. Silvestre devolve ao corpo feminino o direito de nome, de desejo, de contradição. E, ao mesmo tempo, mostra que fechar os olhos é, muitas vezes, a primeira forma de participação. A obra não grita; sussurra. E, no silêncio que deixa, ecoa a pergunta que nunca envelhece: quantos cadáveres ainda estão jogados aos nossos pés, esperando que decidamos olhar?

Autor: Silvestre, Edney

Preço: 13.96 BRL

Editora: Record

ASIN: B00A3D1GGQ

Data de Cadastro: 2025-11-19 19:49:16

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