# *Submersa*: A Loucura como Portal para a Verdade
## Resenha Crítica de Elizabeth Bheinn (2017)
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### *Introdução: O Convite ao Abismo*
Elizabeth Bheinn estreia na cena literária nacional com Submersa (2017), um romance que desafia categorizações rígidas ao fundir fantasia sombria, thriller psicológico e romance adolescente em uma narrativa visceral e perturbadora. A obra, publicada originalmente em formato digital, apresenta-se com a epígrafe de Nietzsche — "Há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre um pouco de razão na loucura" — que funciona como chave hermenêutica para toda a construção narrativa. Bheinn convida o leitor a mergulhar não apenas em um mundo paralelo chamado Helmore, mas nas profundezas da psique de uma protagonista cuja sanidade é constantemente posta em xeque, criando uma experiência de leitura onde a fronteira entre realidade e delírio permanece propositadamente tênue.
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### *Desenvolvimento Analítico: Os Territórios da Mente*
*A protagonista e a voz narrativa*
Allykah Grace Flowerence é uma das vozes mais instigantes da literatura fantástica brasileira contemporânea. Com quase dezoito anos, diagnosticada como esquizofrênica e dependentes de antipsicóticos que "já não fazem efeito", ela apresenta-se como narradora absolutamente inconfiável — e é precisamente nessa instabilidade que reside o brilhamento do texto. Bheinn constrói uma consciência literária que oscila entre a autoconsciência cínica ("Eu sou louca, louca de verdade, comprovada e tudo") e a vulnerabilidade crua de quem não consegue distinguir se as criaturas que vê são manifestações de sua psique ou entidades autônomas.
A estrutura temporal alternada entre capítulos "Antes" e "Depois" cria um efeito de descontinuidade que imita a experiência da própria protagonista. O "Antes" situa-se no mundo ordinário — uma escola brasileira genérica, relacionamentos tóxicos com a amiga Jayne, a família fragmentada — enquanto o "Depois" mergulha em Helmore, o submundo onde gigantes devoram anões e fadas puxam cabelos. Essa dicotomia, longe de ser meramente funcional, opera como metáfora da própria condição de Allykah: dois mundos que coexistem, que se infiltram um no outro, e onde a sanidade é apenas uma convenção social frágil.
*A construção de Helmore e a mitologia improvisada*
O mundo fantástico de Bheinn evita as convenções do high fantasy élfico e escolhe uma estética de dark fantasy visceral. Helmore é um lugar onde "a carne em decomposição fede à beça", onde gigantes com "pés do tamanho de um feijão" esmagam corpos, e onde a sobrevivência exige transações morais ambíguas. A autora não se preocupa em construir um sistema mágico coerente ou uma geografia detalhada; em vez disso, oferece fragmentos de um mundo em constante mutação, percebido através dos olhos de alguém que pode estar alucinando.
Essa opção estética é ousada: ao recusar a cartografia rigorosa de um Tolkien ou a regração mágica de um Sanderson, Bheinn aproxima-se mais da tradição do fantástico latino-americano, onde o real e o mágico se contaminam sem necessidade de explicação. A presença de criaturas como os "homens de rosto pintado" que falam uma língua incompreensível, ou a "rainha do reino dos espíritos" que rapta crianças há séculos, evoca mais o universo de Pedro Páramo de Rulfo do que as tradições anglo-saxônicas de fantasia.
*O romance e a dinâmica de poder*
A relação entre Allykah e Amós — seu melhor amigo de infância que reaparece como salvador improvável — é o motor emocional da narrativa. Bheinn desenvolve uma dinâmica de friends-to-lovers que evita os lugares-comuns do gênero. Amós não é o herói estoico nem o bad boy redimível; é um jovem traumatizado, filho de uma mãe que "morreu afogada na banheira", que carrega sua própria carga de instabilidade. A tensão sexual entre os dois é construída com lentidão torturante, atravessada por mal-entendidos, ciúmes patológicos e a constante ameaça da morte.
O que distingue esse romance é como ele está imbricado na própria arquitetura da loucura. Allykah deseja Amós, mas não sabe se esse desejo é real ou produto de sua "imaginação desvairada". Quando ele a salva da água gelada, quando a aquece com seu corpo, quando quase a beija — cada momento de intimidade é simultaneamente desejado e temido, porque a protagonista não confia em sua própria percepção. O romance torna-se, assim, um ato de fé: acreditar que o outro existe, que o afeto é mútuo, que a conexão não é sintoma.
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### *Apreciação Crítica: Méritos e Tensões*
*Os acertos*
A maior virtude de Submersa reside na voz narrativa. Bheinn domina o registro coloquial brasileiro sem cair na caricatura, criando uma protagonista que soa autêntica em sua mistura de sarcasmo adolescente e desespero existencial. Os diálogos são ágeis, pontuados por gírias ("vadiazita", "babaca", "escroto") que não soam forçadas, e o humor — frequentemente negro — funciona como válvula de escape para a tensão acumulada.
A construção sensorial do texto é igualmente notável. Bheinn não teme o grotesco: descreve corpos em decomposição, fezes, sangue, fluidos corporais com uma franqueza que raramente se vê na literatura nacional. Essa materialidade visceral serve a um propósito estético — ancora o fantástico no corpo, recusa a idealização do outro mundo como lugar de pureza espiritual. Helmore é sujo, fedido, sexualizado; em suma, humano demais.
*As tensões*
A obra apresenta, contudo, desafios estruturais significativos. O ritmo narrativo é irregular: os primeiros capítulos, situados no mundo real, funcionam com eficácia como thriller psicológico, mas a transição para Helmore introduz uma série de eventos que podem desorientar o leitor menos habituado às convenções do gênero fantástico. A lógica interna do submundo permanece opaca — o que pode ser intencional, dada a natureza da protagonista, mas que ocasionalmente gera frustração.
A caracterização secundária é esquemática. Figuras como Jayne, Pierre (o namorado descartável) ou mesmo os pais de Allykah funcionam mais como funções dramáticas do que como personagens plenos. No submundo, a "princesa Danis" e o "lorde Torinn" parecem arquétipos de RPG de mesa — a líder sábia, o guerreiro sarcástico — que contrastam com a complexidade da protagonista.
A resolução da trama, sem spoilers, privilegia o impacto emocional sobre a coerência lógica. Questões fundamentais — como o funcionamento dos portais entre mundos, a natureza exata da "rainha dos espíritos", o destino de certos personagens — permanecem deliberadamente em aberto. Isso pode ser lido como ousadia poética ou como falha de construção, dependendo da expectativa do leitor.
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### *Conclusão: A Beleza da Instabilidade*
Submersa é uma obra que exige do leitor uma entrega sem reservas à lógica da loucura. Não é um livro para quem busca fantasia com mapas detalhados e sistemas mágicos explicados; é, antes, uma experiência de imersão na consciência fragmentada de uma jovem que pode estar salvando sua irmã de criaturas sobrenaturais ou simplesmente perdendo completamente a sanidade.
Elizabeth Bheinn demonstra com essa estreia uma voz original e destemida, capaz de navegar entre gêneros sem se submeter a nenhum deles completamente. A obra dialoga com tradições diversas — o realismo mágico latino-americano, a fantasia urbana contemporânea, o romance psicológico — mas articula essas influências em uma poética própria, marcada pela corporalidade crua e pela recusa de redenções fáceis.
Para o leitor contemporâneo, especialmente o jovem adulto habituado a narrativas de fantasia que tratam o trauma com seriedade mas sem indulgência (como as obras de Leigh Bardugo ou V.E. Schwab), Submersa oferece uma porta de entrada à literatura brasileira que não se envergonha de suas raízes nem de suas obsessões. É um livro sobre o ato de acreditar — no amor, na própria percepção, na possibilidade de redenção — quando todas as evidências sugerem que se está mergulhando em águas sem fundo.
E talvez seja exatamente nesse mergulho, sem a garantia de superfície, que reside a verdade da obra.
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*Gênero Literário:* Fantasia Urbana / Dark Fantasy com elementos de Thriller Psicológico e Romance New Adult
*Classificação Indicativa:* 16 anos. Contém violência gráfica, linguagem imprópria, cenas de tensão sexual, temas de saúde mental e situações de perigo extremo. Indicado para leitores que apreciem narrativas ambíguas, protagonistas não confiáveis e fantasia que não recua diante do grotesco.