Um mapa até César Aira - Quatro cinco um

Um mapa até César Aira  Quatro cinco um

Um mapa até César Aira - Quatro cinco um
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A máxima diz que a história só se repete como farsa. Mas quando ela insiste em repetir o mesmo enredo, tragédia após tragédia, o que dizer dessa farsa, dessa cópia, já tão desgastada? O que vemos quando a cópia quase se apagou, deixando uma sombra sobre nós?

Voltemos um pouco no tempo. A Argentina começa a década de 90 forjando um malabarismo para resolver a profunda crise econômica, que veio como herança da ditadura militar dos anos 70 e 80. O Plano de Conversibilidade cria a paridade entre o peso argentino e o tão venerado dólar. Dá certo por um tempo. Quem não lembra o sorriso à Julio Iglesias do presidente Carlos Menem, quando a roda da fortuna estava a seu favor? Mas a roda girou e girou até a crise de 2001, parando no pedido de moratória do país. O som do caçarolazo do povo faminto ecoa até hoje.

Sem qualquer aviso prévio, aprendi no susto que As noites de Flores não era sobre o pesadelo, e sim acerca da lógica do pesadelo, aquilo que, por falta de palavra melhor, chamamos de nonsense. Apesar do momento histórico como regulador da “verdade”, e atrativo inicial do livro para o leitor desavisado, As noites de Flores tem sua força em dissertar sobre o poder do ficcional: você tem um bairro apavorado numa Argentina afundada em crise, mas nada disso parece querer se sustentar por muito tempo. É oco, de papelão. A função da ficção em César Aira é demolir a si própria.