*Resenha: "Wicca: Feitiços e Encantos" — entre o manual prático e o sincretismo esotérico*
Publicado em 2003 pela Editora Linhas Tortas, Wicca: Feitiços e Encantos, de Eddie Van Feu, chega ao público como um compêndio de práticas mágicas que pretende desmistificar a bruxaria contemporânea sem, contudo, se prender a uma ortodoxia rigorosa. O livro posiciona-se deliberadamente como um guia introdutório, mesclando elementos da Wicca anglo-saxã, tradições afro-brasileiras, simbolismo celta e até mesmo práticas derivadas da Alta Magia cristã. Para o leitor não iniciado, trata-se de uma obra que promete acessibilidade; para o observador crítico, configura-se como um documento revelador do esoterismo popular brasileiro do início dos anos 2000, marcado pelo hibridismo e pela valorização da experiência pessoal sobre a erudição histórica.
A estrutura do livro obedece a uma lógica didática que vai do teórico ao prático. Nas primeiras páginas, Van Feu estabelece as bases conceituais, diferenciando simpatia ("magia popular passada verbalmente"), feitiços (rituais com elementos naturais), encantamentos (mini-rituais verbais) e maldições. A autora adota um tom coloquial e confessional, frequentemente recorrendo a narrativas pessoais — como seu envolvimento com o "Marte Retrógrado" ou episódios de infância com uma mãe espírita e um pai cético — para legitimar sua autoridade não como acadêmica, mas como praticante. Essa escolha estilística cria uma proximidade com o leitor, embora sacrifice, por vezes, a precisão terminológica.
O cerne filosófico da obra reside na tensão entre o livre-arbítrio e a responsabilidade mágica. Van Feu introduz a distinção entre "feitiços manipulativos" e "não-manipulativos", defendendo que aqueles que interferem na vontade alheia devem ser evitados ou usados apenas como "último recurso". Contudo, essa postura ética mostra-se ambígua quando o livro inclui, poucos capítulos adiante, receitas detalhadas para "feitiço de união", "feitiço da tranca" (de separação) e "encanto para fazer nascer o amor em alguém". A autora tenta contornar essa contradição argumentando que é preferível um feitiço "não-manipulativo" para atrair amor do que um manipulativo para atrair um amante específico, mas não deixa de fornecer instruções para ambos, criando uma zona cinza ética que reflete mais as contradições do neopaganismo contemporâneo do que uma doutrina coerente.
Do ponto de vista técnico, o livro apresenta contribuições e fragilidades. Destaca-se positivamente a inclusão da "Tabela Planetária" (páginas 26-31), que associa dias da semana e horas do dia a influências astrológicas específicas, servindo como ferramenta prática para o planejamento de rituais. Igualmente notável é a abordagem ao Ogham, alfabeto céltico antigo, e às "Varas de condão", demonstrando um esforço de resgate de tradições ancestrais. No entanto, essa erudição esbarra em afirmações pseudohistóricas pouco fundamentadas, como a etimologia popular do termo "Abracadabra" (ligando-o incorretamente ao aramaico "abbada kedhabra") e a atribuição de origem celta a práticas claramente derivadas da magia popular brasileira.
A obra brilha quando assume sua natureza profundamente brasileira. Ao tratar da "Macumba" não como sinônimo de maldição, mas como "magia de origem afro-brasileira (umbanda, candomblé e quimbanda)", Van Feu rompe com preconceitos comuns e reconhece a especificidade do religioso nacional. A inclusão de "trabalhos" com Ogum, Iemanjá e Ossosi, lado a lado com invocações a Brighid e Ceridwen, configura um sincretismo típico da religiosidade brasileira, que dialoga com o cristianismo popular e o espiritismo kardecista. Essa abordagem ecumênica é refrescante, mas pode confundir leitores que buscam uma ortodoxia wiccana mais purista.
A seção final, "O Caldeirão", composta por troca de emails com leitores, revela as preocupações reais do público: desde questões sobre níveis de iniciáticos até dilemas sobre gatos desaparecidos após rituais de purificação. Esses diálogos humanizam a autora e mostram o livro como parte de uma conversa em andamento, embora a casualidade das respostas — por vezes, com recomendações que oscillam entre o terapêutico e o esotérico — possa diminuir a densidade da obra como tratado sério.
Limitações significativas permeiam o texto. A linguagem, acessível porém desigual, oscila entre insights psicológicos relevantes (sobre visualização e atitude mental) e afirmações cientificamente questionáveis (somergulhadas num relativismo que coloca ciência e crença em pé de igualdade sem método critico). A organização, apesar do índice detalhado, é fragmentada: receitas para o mesmo fim (amor, por exemplo) aparecem dispersas sem ordenamento temático claro, exigindo do leitor um esforço de compilação.
Em síntese, Wicca: Feitiços e Encantos é uma obra de transição, ideal para o curioso que busca um primeiro contato com a prática mágica fora de manuais acadêmicos ou tradicionais. Como documento cultural, captura fielmente o zeitgeist esotérico brasileiro do século XXI: híbrido, democrático, desconfiado de instituições, mas avido por autonomia espiritual. Para o estudioso das religiões, oferece material etnográfico rico sobre como tradições orais brasileiras são ressignificadas através do vocabulario wiccano. Para o praticante sério, serve mais como um caderno de receitas inspiradoras do que como um guia dogmático — o que, ironia à parte, parece ser exatamente a intenção de Van Feu. A obra permanece relevante não pelo rigor filológico, mas pela honestidade de sua proposta: oferecer ferramentas simbólicas para quem busca, nas palavras da própria autora, "caminhar o mundo mágico" com responsabilidade, ainda que sem mapas oficiais.